“Logan”, de James Mangold

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Logan (2017)

Eu tenho uma relação forte com o personagem Wolverine, a revista em quadrinhos lançada pela Editora Abril em 1992 foi a primeira que acompanhei na infância desde o primeiro número, aguardava ansiosamente os capítulos de sua aventura solo em Madripoor, quando ele era conhecido pelo apelido “Caolho”. Naquela época, antes mesmo da série animada dos “X-Men” estrear no programa matinal TV Colosso, eu sonhava com um filme do carcaju. Os anos passaram, a indústria de cinema deu um abraço apertado na nona arte e Hugh Jackman, uma aposta nada convencional do diretor Bryan Singer, defendeu o
personagem no primeiro filme da equipe mutante. Eu tinha quinze anos, já estava afastado do universo dos quadrinhos, vivendo aquele período em que tolamente recusamos ser associados com qualquer produto que nos remeta à infância. Mas eu me lembro de ter ficado feliz com aquela versão, o problema era o timing daquele projeto na minha vida.

“X-Men 2”, fantástico, uma das melhores adaptações de quadrinhos de todos os tempos. A frustração então virou uma constante com os projetos seguintes, atingindo seu ápice no horroroso “X-Men Origens: Wolverine”. A ironia é que, na época de seu lançamento, eu já estava atuando profissionalmente como crítico, então cobri a coletiva de imprensa do ator no Brasil, já esbanjando a simpatia que atualmente está sendo celebrada nas redes
sociais. Ele está vivendo o personagem há dezessete anos, um feito digno de nota, creio que somente Christopher Reeve, no que tange quadrinhos no cinema, conseguiu estabelecer uma ligação tão forte de carinho com o público. E ele, tragicamente, não teve a mesma sorte que Jackman, a sua carta de amor para os fãs foi rasgada pelos executivos da Cannon na bomba “Superman 4 – Em Busca da Paz”.

“Logan” é um bom filme, mas longe de ser a obra-prima que muitos estão enxergando, o hype e o efeito manada são parte importante na estratégia de marketing das produtoras, alguns críticos são praticamente alçados ao posto de assessores de imprensa não-remunerados do filme. Os seus problemas prejudicam a imersão plena, então vou me ater inicialmente a eles, antes de tecer os elogios. Sem revelar muito, os vilões são absurdamente desinteressantes, não há sequer um nome que tenha ficado em minha mente minutos após o fim da sessão, não há peso em suas atuações, não há sensação orgânica de ameaça. O mais importante, aquele que em teoria representa o metafórico confronto do homem com sua finitude, com o ato do envelhecimento, literalmente é jogado na trama e não recebe um mínimo de atenção, por conseguinte, enfraquece terrivelmente um dos momentos que deveriam ser emocionalmente devastadores. O protagonista fala diversos palavrões logo nos primeiros minutos, como aquele adolescente que deseja chocar os mais velhos, um recurso que soa forçado, como que para deixar claro para os espectadores adolescentes que eles estão vendo um filme “para maiores”. Há sangue, há brutalidade nas cenas de ação, mas não há nada na trama que justifique a mudança na
classificação etária, existe mais maturidade narrativa em animações da Pixar.

O arco narrativo de Logan não é desenvolvido, ele não muda com os acontecimentos vividos, por mais que a última cena insinue algo nesse sentido, não soa crível. A emoção nasce do sentimento que foi estabelecido entre o público e o protagonista nesses dezessete anos, não é mérito do texto, ou das escolhas criativas do diretor. E há um problema imperdoável, total desleixo, um vídeo gravado em celular, espécie de found footage que serve como elemento expositivo, mas editado de forma impecável, com direito até a uma
narração em off. Se isso fosse mostrado rapidamente, ainda dava para engolir, mas a cena é longa, não é possível que ninguém percebeu como aquela sequência destoava da estética realista que o filme tenta estabelecer desde o início. A referência ao clássico faroeste “Os Brutos Também Amam” é inserida com mão pesada, talvez um pouco de sutileza seria mais elegante e respeitaria mais a inteligência do espectador, demonstrando segurança em sua louvável ambição dramática. Quando o foco está na interação entre Logan, Xavier (Patrick
Stewart) e a pequena Laura (Dafne Keen), o roteiro flui muito bem, porém, a subtrama com Caliban (Stephen Merchant) quebra o ritmo ao tentar forçar uma relevância emocional que o personagem não carrega no universo cinematográfico, apesar de ter sido recorrente nos quadrinhos dos anos oitenta, ele teve apenas uma ponta no recente “X-Men: Apocalipse”, interpretado por outro ator.

O roteiro acerta ao não revelar o que aconteceu no período de tempo entre os dias de glória e esse futuro opressivo, a imaginação sempre realiza um trabalho melhor que a computação gráfica. Algumas dicas são dadas em diálogos, há muita amargura e culpa no peso das palavras, o heroísmo parece existir apenas nas páginas dos quadrinhos lidos pela menina, um toque genial, assim como o boneco do Wolverine que aparece nas mãos de uma criança, ressaltando a importância desses símbolos mitológicos na formação de um indivíduo. Dafne Keen impressiona pela facilidade com que trabalha a ferocidade incontrolável e a vulnerabilidade doce de sua personagem, por vezes, na mesma cena, sem dúvida, ela é o ponto alto do filme. Stewart entrega a dignidade de sempre, ainda que o roteiro não forneça grandes momentos para ele. Jackman está envolvido de corpo, alma e coração no projeto, isso é perceptível e agrega emoção. O corpo cansado, envenenado pela própria condição que o permitiu se tornar uma máquina de guerra, os olhos vermelhos, o andar trôpego, uma composição visualmente impecável, ideia inspirada pelo arco “Old Man Logan”, escrito por Mark Millar e ilustrado por Steve McNiven. Vale destacar o trabalho
primoroso de Isaac Bardavid na versão brasileira, até pelo peso da idade, ajudando a dar veracidade ao lamento constante que rasga o peito do personagem.

“Logan” é uma despedida digna para o ator, uma respeitosa carta de amor para os fãs, o filme que finalmente me resgatou a sensação da importância que o personagem teve em minha infância. Os problemas existem, não há obra perfeita, mas o tratamento dos quadrinhos pela indústria cinematográfica está tão preguiçoso atualmente, diversão despretensiosa e uma fórmula irritantemente inofensiva, que considero revigorante a maneira como o desfecho evoca uma emoção madura, sem concessões.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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