Woody Allen – “Hannah e Suas Irmãs”

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    Link para os textos anteriores desse especial que se leva
    tão a sério quanto o próprio Woody:

    http://www.devotudoaocinema.com.br/p/make-em-laugh.html

    “Euclides levantou da cama, admirou a vista da janela, agradeceu
    à chuva por lavar seu carro, tomou um shot de uísque para despertar seu
    organismo, desceu a escada em direção à cozinha, percebeu que seu cão havia
    fugido novamente, discou o número do vizinho, constatou que não havia ninguém
    em sua casa, piscou duas vezes os olhos para umedecer as vias lacrimais, pensou
    por um momento em como seria interessante o conceito da Terra plana para quem
    tem pés chatos, depois levantou a mão direita na direção do rosto e afastou com
    delicadeza o mosquito que tencionava se alojar em sua pele para sugar…”

    O editor não conseguia acreditar naquilo que estava lendo,
    ele jogou os originais do autor na mesa e pediu para sua secretária entrar em
    contato com o rapaz imediatamente. A reunião foi marcada para aquela tarde, o
    destino literário de Ashton Moser estava por um fio.

    Ashton Moser, pseudônimo de Cícero Adamantino, entrou no escritório
    com a segurança de um narcisista em uma sala de espelhos, ele representava o
    futuro da nação, o jovem que trocou uma carreira promissora na loja de calçados
    por uma possibilidade de inserir seu nome dentre os imortais das letras. O
    único obstáculo era sua capacidade impressionante de ser desprovido de qualquer
    talento na área. Ele se sentou e aguardou os elogios.

    – O seu herói se chama Euclides? – O editor tentou iniciar
    no amor.

    – Exatamente. Um espião à serviço secreto de sua
    majestade…

    – O sabiá? – O corte debochado do seu superior perceptivelmente
    não o agradou.

    – Como? Não estou entendendo.

    O editor se levantou, contendo seu impulso de esmurrar o
    nobre mentecapto, trabalhando cada palavra com a leveza de um boxeador.

    – É pedir demais que você se atenha ao cenário nacional? O seu texto
    é chato porque você quer passar uma imagem de algo que não conhece, nem sequer
    estuda o tema. Você é tipo aquele diretor de cinema metido a culto que filma
    uma árvore ao contrário por cinco minutos e chama isso de arte. Eu não vou te
    enrolar, o seu texto é insuportável!

    – Eu já te contei do meu outro projeto engavetado? – A animação
    do autor surpreendeu o editor.

    – Você escutou uma palavra do que eu disse?

    O jovem se levantou também, aquele feedback negativo não
    parecia ter abalado sua confiança.

    – Olha, imagine isso, uma história que vai agarrar o público
    pelo bolso…

    – Diga, Cícero, não me faça sofrer por antecipação.

    – Uma mulher, dois homens, um corretor de imóveis…

    – Ok, já escutei o suficiente. Chega! Leve seus originais e,
    por favor, pense no que eu te disse. Você precisa se alimentar, está magro
    demais, precisa tomar um sol, sair um pouco e se divertir.

    – Eu tentei começar um treino na academia de ginástica.

    – É isso! Esse é o caminho. Não está treinando?

    – Eles exigiram um exame físico, eu disse que já havia
    passado por uma bateria de exames médicos de vídeos de ASMR, a personal trainer não
    aceitou…

    O editor, prezando por sua sanidade, abriu a porta do
    escritório e esperou o rapaz abandonar o local. Aquele era o fim da promissora
    carreira literária de Ashton Moser, o mito nacional, a lenda.

    Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters – 1986)

    A filha mais velha de um casal de artistas, Hannah (Mia
    Farrow) é uma dedicada esposa, mãe carinhosa e atriz de sucesso. Uma leal
    defensora de suas duas confusas irmãs: Lee (Barbara Hershey) e Holly (Diane
    Keaton), ela é também a espinha dorsal de uma família que parece se ressentir
    de sua estabilidade quase tanto quanto dependem da mesma.

    Inspirado em “Fanny e Alexander”, de seu ídolo Ingmar Bergman, Allen trabalha a evolução de um núcleo familiar através de três celebrações anuais, pela ótica do leitmotiv defendido em cena: “O coração é um músculo muito, muito elástico”. Na cena mais bela do filme, ele captura aquela que
    considero a melhor explicação para a vida. Seu personagem acreditava estar
    prestes a morrer, entristecido também pela impossibilidade de sua esposa
    engravidar, sem paixão com relação ao futuro, então ele caminha pela cidade sem
    rumo por algumas horas, guiado apenas pela centelha de esperança que se recusa
    a ceder perante a doença fatal que acredita ter. Ele chegou a apontar o cano de
    um rifle para a própria cabeça, acreditando não haver motivação alguma em sua
    existência. Nada parecia fazer sentido, até que ele entra numa sala de cinema
    e, mesmo naufragando em um oceano de depressão, ele se surpreende sorrindo com
    uma comédia dos Irmãos Marx.

    O personagem conclui que, mesmo a vida sendo um passeio numa
    montanha-russa de mais baixos que altos, aqueles breves momentos de
    conforto e alegria valem o preço do ingresso. E o elemento desconhecido
    inerente a todos nós, que o perseguia com tantos questionamentos, nunca seria
    plenamente revelado, independentemente do quão insistentemente perguntasse. Ele
    então relaxa na poltrona, com todos os seus conflitos internos sucumbindo ao
    peso daquele leve entretenimento, e se permitiu o prazer da diversão. O ânimo
    adquirido naquela sessão motivou seu espírito a enfrentar mais um dia. E, um
    ano depois, envolvido em uma relação muito mais feliz com outra mulher, num ato
    inesperado do destino, ele se emociona por ter realizado o sonho de ser pai.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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