“Zero de Conduta”, de Jean Vigo

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    Zero de Conduta (Zéro de Conduite – 1933)

    É um exercício interessante analisar como esse
    média-metragem influenciou o mundo da arte, em suas várias vertentes. “Os
    Incompreendidos”, o nascimento da Nouvelle Vague pelas mãos de François
    Truffaut, referência mais óbvia, conta até com uma homenagem direta na sequência
    que acompanha o grupo de crianças se perdendo conscientemente pela cidade,
    quando deveriam seguir o mestre, quebrando o código de conduta. Você pode
    enxergar inspiração também em “If”, de Lindsay Anderson, “The Wall”, disco
    seminal do grupo Pink Floyd, ou no filme adolescente “Clube dos Cinco”, de John
    Hughes. O roteirista/editor/diretor francês Jean Vigo faleceu antes dos trinta
    anos, mas deixou um legado precioso. Com menos de três horas, reunindo todos os
    seus trabalhos, o rapaz simplesmente redefiniu as regras do jogo.

    O tema sempre me agradou, li na infância “Os Meninos da Rua
    Paulo”, de Ferenc Molnár, experiência que gravou em minha mente várias
    passagens até hoje, o conceito de utilizar crianças se rebelando é pleno em
    simbologia, como se a pureza de caráter se revoltasse contra o corruptível
    mundo adulto. Paulo Emílio escreveu dois livros sobre a obra de Vigo, verdadeiros
    tesouros, abordando até mesmo a influência do pai na vida profissional do
    filho. Mas ver “Zero de Conduta” automaticamente surpreende pelo frescor de
    estilo, não há sinal de pedantismo desejoso de aceitação pelos intelectuais, a
    abordagem é despida de tudo aquilo que não é natural. Os recursos artificiais, o
    belo slow motion na guerra de travesseiros, jump cuts, servem para potencializar
    a força anárquica das ações, o revide ao encarar a repressão das figuras de
    autoridade. Claro que a obra sofreu censura na época, sendo liberada apenas
    após a Segunda Guerra Mundial. Vigo resgatou no filme, com muito humor, as suas
    lembranças de infância, época em que a imaginação rege o universo de possibilidades
    escancaradas no futuro. E, em sua visão, o sistema educacional é falho,
    objetivando mais o encarceramento físico e ideológico dos alunos, inserindo
    crianças em um molde limitado, permitido na sociedade, que elimina qualquer
    impulso artístico como embrião revolucionário.

    A pouca experiência do diretor, somada às dificuldades
    técnicas, incentivaram o rapaz a subverter as convenções narrativas, abandonando
    a linearidade, garantindo uma caligrafia única, com a criatividade atuando
    livre de qualquer amarra, um tratado libertário, representado pelo desfecho com
    as crianças correndo pelos telhados da instituição.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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