“Corra!”, de Jordan Peele

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Corra! (Get Out – 2017)

Ao perceber o carro de polícia se aproximando na cena do crime, o rapaz negro, apesar de estar consciente de sua inocência, levanta os braços aguardando a injustiça do sistema. O ato de viver em alerta constante, o medo de se permitir confiar em alguém, Jordan Peele, roteirista/diretor em sua obra de estreia, impressiona pela segurança com que trabalha os elementos tradicionais do gênero terror, focando nessas questões sem ser panfletário, equilibrando com desenvoltura na equação os alívios cômicos.

O protagonista, Chris (Daniel Kaluuya), encontrou uma maneira de expressar sua angústia social pela fotografia. Em um de seus trabalhos, na parede de sua casa, um cão branco desafia o dono forçando a coleira atacando algo fora da imagem. Símbolo visual que me remeteu ao poderoso filme de Samuel Fuller: “Cão Branco”, outro imprescindível trabalho crítico sobre o tema. Logo no início, o carro da figura mascarada que sequestra um
negro em sua caminhada noturna é branco. A utilização da cor pode soar tola em
um primeiro momento, um artifício nada sutil, mas reconhecendo a origem de Peele na comédia, estes detalhes ganham peso satírico, enfatizando exatamente o simplista discurso que, por muitas vezes, reduz o preconceito racial a uma peça no tabuleiro do joguete político. O pai (Bradley Whitford) da namorada, uma jovem branca (Allison Williams), na tentativa de passar uma imagem acolhedora, defende o voto em Obama.

A forma como ele insere a informação na conversa é constrangedora, nada orgânica. A mãe (Catherine Keener), psicóloga, hipnoterapeuta, está sempre com um leve sorriso no rosto, invariavelmente demonstrando estar ofendida com as brincadeiras fora de tom do marido e de seu filho adolescente (Caleb Landry Jones), provocador e emocionalmente instável. A família é a caricatura perfeita do liberalismo norte-americano hipócrita que favoreceu nos bastidores a absurda ascensão de Trump.

Revelar mais sobre a trama seria um desserviço à experiência, os eventos que se sucedem à chegada do casal na residência luxuosa da família Armitage rapidamente ganham contornos cada vez mais incômodos, arrepiantes, especialmente após a chegada de um grupo de visitantes da alta sociedade. “Corra!” é, desde já, um dos melhores filmes do ano.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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