“Ladrões de Sabonete” e “Volere Volare”, de Maurizio Nichetti

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    Ladrões de Sabonete, de Maurizio Nichetti (Ladri di Saponette – 1989)

    Maurizio Nichetti é uma espécie de Woody Allen italiano,
    menos talentoso, menos carismático, mas que compensa na ousadia temática. “Ladrões
    de Sabonete”, em revisão, funciona melhor na teoria, o esperto jogo em
    diferentes níveis narrativos homenageando o neorrealismo e criticando duramente
    a forma como o cinema se tornou subproduto televisivo.

    A execução poderia ser menos
    truncada, o ritmo melhora consideravelmente no terceiro ato, quando os
    personagens das duas mídias começam a interagir ludicamente. Nos segmentos em
    que acompanhamos a família diante do aparelho de televisão, dedicando pouca
    atenção ao filme que está sendo transmitido, o humor atinge seu ponto alto,
    aquelas pessoas claramente enxergam arte como simples distração imediatista, o texto
    trabalhado pelos atores na tela pequena tem o mesmo valor dos jingles dos
    produtos que são vendidos nos intervalos comerciais. Trazendo para a realidade brasileira, é por este motivo que as
    telenovelas, em essência, serão sempre entretenimento raso, apesar dos valorosos
    esforços das equipes criativas.

    Nichetti vive o protagonista do drama e, nos
    segmentos ambientados nos estúdios da emissora, vive ele mesmo, um diretor
    decepcionado com o pouco caso dos executivos com seu projeto, “Ladrões de
    Sabonete”, referência ao clássico “Ladrões de Bicicleta”, de Vittorio De Sica.
    A trama do filme dentro do filme é propositalmente irrelevante, a graça está na
    forma como a montagem interrompe o investimento emocional do espectador em
    cenas importantes com a inserção frequente da publicidade em cores vibrantes.
    Quando a confusão invade o reino da fantasia, emulando “A Rosa Púrpura do Cairo”,
    que Woody Allen havia lançado quatro anos antes, modificando a obra, o diretor revoltado
    decide resolver a questão na marra, garantindo alguns bons momentos. Mas, de
    modo geral, o exercício de estilo acaba chamando mais atenção que o conteúdo. O
    roteirista/diretor entregaria seu melhor trabalho dois anos depois.

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    Volere Volare, de Maurizio Nichetti e Guido Manuli (1991)

    Eu tenho a vívida lembrança de ter conhecido essa pérola
    numa exibição televisiva noturna no início dos anos noventa, creio que na Bandeirantes,
    mas o que me interessava na ocasião era a frequente nudez feminina e a ideia incrível
    de inserir técnicas de desenho animado neste contexto. Somente pude apreciar
    melhor a obra em revisão, alugada em VHS anos depois. E agora, na sessão para a
    preparação deste texto, já conhecendo a filmografia de Nichetti, constato que
    representa o equilíbrio perfeito entre estilo e conteúdo, o grande problema de
    seus filmes.

    A ideia nasceu após o sucesso mundial de “Uma Cilada para
    Roger Rabbit”, a trama é insanamente pouco convencional, ele interpreta um
    tímido sonoplasta de desenhos animados, enquanto o irmão, seu sócio, prefere se
    encarregar das dublagens de produções eróticas, convocando mulheres
    maravilhosas para o trabalho que é realizado no melhor estilo “método de
    atuação de Lee Strasberg”. Angela Finocchiaro vive uma prostituta exótica que
    se encarrega de satisfazer teatralmente seus clientes, cada um mais doido que o
    outro, uma artista do sexo, na literal definição do termo. A gradual transformação
    do sonoplasta em um cartoon, recurso que garante cenas hilárias, simboliza o
    medo dele diante da possibilidade de contato sensual com o sexo oposto, conceito
    que cai como luva no tom absurdo do roteiro. Ao contrário de sua amiga
    ambiciosa, que prioriza clientes ricos, Martina (Finocchiaro) encara seu
    trabalho como uma missão socialmente relevante, já que permite que loucos extravasem
    nela sua psicopatia, em variados níveis de periculosidade, de forma inofensiva
    para a sociedade, elemento que a humaniza sobremaneira.

    É fascinante a opção por fazer do tradicional final feliz um
    abraço sem concessões no surreal, com a divertida entrega dela às possibilidades do sexo
    com o cartoon, ao invés do caminho óbvio narrativo da solução para o bizarro problema. Uma comédia que jamais seria lançada nos dias de hoje, um sopro de ar fresco em um gênero usualmente escravo da repetição.

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    Octavio Caruso
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