“A Verdade”, de Henri-Georges Clouzot

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    A Verdade (La Vérité – 1960)

    Quando o produtor Raoul Lévy sugeriu ao diretor que
    trabalhasse com a maior estrela francesa da época, Brigitte Bardot, ele sabia
    que apenas um profissional competente e sério como Clouzot seria capaz de
    subverter a imagem da jovem, com coragem para contrariar as expectativas do
    público, acostumado a enxergar ela apenas como um símbolo sexual. “A Verdade”
    até entrega boas doses de sensualidade nos flashbacks, mas, em essência, é um impecável
    drama de tribunal. A atriz teve nas mãos, pela primeira vez, um material que
    verdadeiramente a desafiava. Ela vive a esfuziante Dominique, acusada pelo
    assassinato de seu amante, vivido por Sami Frey, que era noivo de sua tímida irmã.
    Enquanto acompanhamos o seu julgamento e os depoimentos das testemunhas, somos
    apresentados à jornada que a conduziu àquele terrível destino.

    O roteiro foi escrito por Clouzot e sua esposa, a brasileira
    Vera Gibson-Amado, que faleceria pouco tempo depois. O toque de gênio é fazer
    com que a opinião do espectador sobre a jovem mude a cada situação nova
    revelada, o texto nos incita a julgar cada ação na tela de forma intempestiva,
    exatamente como a sociedade faz no macrocosmo, tentando reduzir a complexidade
    de sentimentos humanos a um padrão facilmente identificável, a garota é boa ou
    má, sem tons de cinza. E a trama envolve esta simplificação com o manto da crueldade,
    a tendência natural ao apedrejamento, a negação da empatia, o distanciamento
    arrogante das vaidosas figuras de autoridade, advogados, juiz e júri, que
    enxergam a garota como estatística, como mais um caso dentre tantos. O que
    importa, ao final do dia, é se mostrar superior, os advogados de defesa e de acusação
    buscam respeitabilidade, o embate dura até a martelada final, os dois defendem
    apenas o dinheiro na conta. Se a jovem será condenada à morte, ou não, tanto
    faz, outros clientes virão. Em uma brilhante cena, os dois profissionais, no
    calor da silenciosa arena de batalha, conscientemente omitem por conveniência trechos
    de uma carta que está sendo lida, moldando os fatos sem qualquer remorso. Faz
    parte do trabalho. Qual verdade importa para eles?

    Dominique roubou o noivo da irmã com a intenção clara de
    agredir ela, sempre tão ajuizada e meiga, mas o rapaz também agiu errado, ele
    não se preocupou com os sentimentos da noiva. Após conseguir seu objetivo, ela
    se desinteressou por ele, voltou para a sua rotina de festas e muita paquera, o
    rapaz se revoltou, ficou enciumado. É quando o filme entrega uma de suas cenas
    mais bonitas, de forte simbologia. Ele é maestro, vive da música, da arte, gosta
    de controlar tudo. Ela, uma força da natureza, desapegada das normas sociais,
    livre. Abandonada, aquela que gargalhava na cara do conservadorismo, aquela que
    acreditava ser tão autossuficiente, entra escondida em seu local de trabalho e chora
    estupefata ao ver ele regendo. A grandeza daquele som, tão diferente de tudo o
    que ela costumava escutar, ativa algo em seu íntimo que nunca havia sido
    estimulado. O amor genuíno, sem se importar com competição infantil por
    atenção, sentimento que não se esvai ao não ser correspondido, já que não
    depende de aceitação, ele simplesmente existe. Este momento engrandece ainda
    mais o desfecho brutal da obra, adicionando camadas preciosas, evidenciando o
    quão frágil é o conceito do julgamento.

    Os jornalistas que cobriam o caso,
    antes mesmo das últimas palavras serem ditas, já abandonaram o local, o que
    importa é a manchete, o que importa é ser o mais rápido a entregar a matéria. O
    material humano nesta equação é lixo.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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