“It: A Coisa”, de Andrés Muschietti

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    It: A Coisa (It – 2017)

    O ano está excelente para o horror, “It: A Coisa” é mais um
    título que não tem prazo de validade curto, merece constar nas listas de
    melhores adaptações das obras de Stephen King, mérito do diretor argentino
    Andrés Muschietti, responsável pelo arrepiante cartão de visita chamado “Mamá”,
    de 2008, curta que em apenas três minutos conseguiu atrair a atenção dos
    produtores da indústria norte-americana, que o escalaram para comandar também a
    versão em longa-metragem lançada cinco anos depois. A primeira adaptação do
    livro foi uma minissérie em dois episódios bastante fraca, que alternava entre
    o núcleo infantil e suas contrapartes adultas e só se salvava pela presença
    irretocável de Tim Curry, vivendo o palhaço Pennywise.

    A decisão de focar toda esta primeira parte em apenas um
    período temporal foi muito inteligente. Agora a responsabilidade não precisa
    pesar tanto nos ombros de Bill Skarsgård, o grupo de crianças é encantador, o
    clube dos perdedores, cada uma representando uma característica que socialmente
    é vista como obstáculo, o gago, o asmático, o gordinho, o magricela de óculos,
    em suma, indivíduos que enfrentam diariamente a estupidez do bullying escolar.
    E o roteiro de Gary Dauberman, Chase Palmer e Cary Fukunaga consegue retratar
    este aspecto com tremenda sensibilidade, verdadeiramente emocionando, como no
    momento em que a menina bonita encontra o caderno do gordinho sem assinaturas e
    decide demonstrar carinho. Estes pequenos gestos, situações simples, vão
    construindo arcos narrativos sólidos, conduzindo o público a se importar, de
    fato, com o bem-estar deles. A reconstrução de época, o resgate da nostalgia da
    geração dos anos oitenta, não soa artificial como em “Stranger Things”, ou “Super
    8”, que se preocupavam demais com a estética, o figurino, mas falhavam em
    captar a essência libertária e o senso de humor despretensioso. Muschietti
    evidencia as referências, Molly Ringwald é citada, toda a aura de ameaça
    representada pelo palhaço reverbera os ataques oníricos de Freddy Krueger, a
    camaradagem orgânica que se estabelece entre as crianças remete à “Patrulha B.R.A.T.”,
    “Conta Comigo”, “Os Goonies”, fruto de uma geração que cresceu escutando
    músicas infantis que enalteciam o poder da amizade e a importância de lutar
    pela honra. O que as crianças escutam hoje?

    A “coisa” representa o medo em duas fases distintas na vida
    em que a insegurança parece tomar o controle, quando a criança percebe estar amadurecendo
    e quando o adulto encara a proximidade da finitude, elemento que engrandece o
    livro e que é inteligentemente retratado no filme, com a computação gráfica
    possibilitando a pluralidade de versões que ele pode assumir na mente de cada
    vítima. O monstro se alimenta da insegurança, o seu objetivo é fazer nascer no
    espírito puro o medo, ele se mostra presente nos momentos em que o indivíduo se
    mostra existencialmente fragilizado diante do desconhecido, logo, ao encontrar
    crianças marcadas a ferro e fogo pela exposição diária à estupidez de seres sem
    empatia, psicopatas em estado embrionário, o agente do mal encara pela primeira
    vez a resistência. A forma como o roteiro trabalha as sequências de horror não
    é altamente original, nem precisaria ser, exatamente por tratar do medo como
    instinto primitivo, ele se apoia em convenções como jump scares e efeitos
    sonoros alarmantes, com instigante utilização das sombras, mérito da fotografia de Chung Chung-hoon, a execução é impecável.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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