“Magical Mystery Tour”, dos Beatles

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    Magical Mystery Tour – 1967

    Parece que foi ontem, a noite prometia ser espetacular. Eu
    iria realizar um dos meus sonhos de infância, estar perto de Paul McCartney.
    Tecnicamente, eu estive perto dele no clássico show de 1990, já que moro
    próximo ao estádio do Maracanã, escutei da janela todas as músicas. Mas o
    destino me presenteou com a possibilidade de viver plenamente esta experiência
    em 2011, em outro estádio, o Engenhão. A emoção já bateu forte quando ele
    decidiu iniciar com “Magical Mystery Tour”, uma das minhas favoritas. Beatles, Elvis Presley e Frank Sinatra são meus grandes ídolos na música. As carreiras cinematográficas de Elvis e Sinatra são usualmente lembradas com carinho, mas os filmes dos Beatles, com exceção de “A Hard Day’s Night”, costumam ser alvo de deboche. Acho válido tentar modificar isto, então começo logo pelo mais odiado, cinquenta minutos de puro nonsense surreal.

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    Sejamos sinceros, boa parte da obra de Godard também não faz
    sentido algum, mas você dificilmente lerá um crítico apedrejando o diretor
    francês. Eles se dedicam a encontrar significado até no espirro do ator. É uma
    questão de autoafirmação intelectual, defender publicamente que aprecia
    bobagens como “Adeus à Linguagem” agrega valor, já apontar o brilhantismo da
    sequência emoldurada por “Blue Jay Way”, com George Harrison envolto em névoa e
    dedilhando um teclado pintado no chão, não instiga sequer um tapa nas costas. Enquanto
    o primeiro se leva aborrecidamente a sério e crê estar revolucionando o mundo,
    o segundo faz parte de um projeto que gargalha na cara do pedantismo. A cena é
    trabalhada sensorialmente para estabelecer uma aura de medo, como se o
    personagem estivesse numa espécie de limbo entre a vida e a morte, logo após o
    acidente trágico que o desfecho insinua, refletindo sobre a necessidade de compreender
    a finitude, aceitar que não pertencemos (“don’t be long”, que evolui para “please
    don’t belong”), somos seres únicos. Ao final da apresentação, aplausos
    animados, todos retornam para o ônibus, seguem viagem. O destino? Não importa.

    A
    alegria despretensiosa do início vai se transformando, ganhando contornos
    contemplativos, o romance idealizado pelos olhos da tia de Ringo logo se mostra
    mais uma ilusão, como o devaneio poético de Paul em “The Fool on The Hill”. A
    estupidez da guerra é parte fundamental, o general/toureiro humilhando o touro,
    teatro patético que é quebrado com a simples questão de Ringo, que honestamente
    quer entender a razão de tudo aquilo. “I Am The Walrus” evidenciando a natureza
    caótica da vida, inserindo trechos rápidos que mostram os bastidores, a batida
    da claquete, o ensaio. Após a fase da decadência física, representada pela
    performance da stripper e seu cafona colega cantor, somos encaminhados para a
    nostalgia de “Your Mother Should Know”, o resgate natural que ocorre no
    crepúsculo da vida e embeleza tudo o que toca, a escada no palco leva para o
    desconhecido. Os quatro magos (elemento divino/sobrenatural) retornam então
    para liderar a massa aos agradecimentos, o fechar da cortina, o reinício do
    ciclo.

    A mágica misteriosa da jornada é entender que a beleza está em compartilhar
    pelo breve período a mesma paisagem.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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