“Polícia Federal: A Lei é Para Todos”, de Marcelo Antunez

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    Polícia Federal: A Lei é Para Todos (2017)

    “O sistema é feito para não funcionar”. A frase dita por um
    dos investigadores do filme sintetiza a coragem do roteiro em apontar que não
    há heróis na política, não há lógica em defender pessoas claramente envolvidas
    em falcatruas, figuras que enriquecem enquanto o povo que os colocou no poder
    luta para sobreviver chafurdando na lama, nem mesmo a desculpa da genuína ideologia
    pode ser sustentada. Já está claro que “esquerda” e “direita” neste país roubam da mesma
    forma, a resposta não está em partidos, a esperança reside em indivíduos
    íntegros. É questão de caráter, nunca deposite sua confiança em líderes que não
    compartilham os mesmos serviços que o coletivo de pessoas responsáveis por sua
    posição social. A nossa sociedade está muito longe da realidade de outras
    nações verdadeiramente dignas e corretas.

    Quando o filme “Polícia Federal – A Lei é Para Todos”
    foi lançado, eu percebi a clara intenção de boicote de parte do público e da
    crítica, atitude que sempre repudio, o instinto de censura serve apenas aos cretinos. Uma breve reflexão: a beleza do cinema é
    também a capacidade de abordar o mesmo evento por perspectivas diferentes. Você
    pode ver um clássico alemão de propaganda nazista e logo depois ver a resposta
    norte-americana incitando os jovens à guerra, “Suss the Jew” (1940) é
    antissemita até o talo, enquanto “Confissões de um Espião Nazista”
    (1939) desfere um soco de direita no queixo de Hitler. Por este motivo não consegui
    acreditar quando li textos tentando deslegitimar a obra utilizando como base o
    argumento de que ela retratava a versão de apenas um lado da história. Não há
    argumento mais tolo, um desserviço à função da crítica como ferramenta
    filosófica que prima pela pluralidade de pontos de vista. Ficando no mesmo
    tema, “Lula, o Filho do Brasil” era imparcial? Que os dois filmes
    sejam vistos e analisados sem preconceito, nunca boicotados (ainda que de forma sutil), que a pluralidade de
    abordagens agregue à experiência de cada espectador. O crítico de cinema que
    toma partido antes de conhecer o filme está agindo de forma errada,
    estupidamente errada.

    A utilização
    da narração em off como fio condutor da trama é um ponto negativo, o recurso
    quase sempre tenta disfarçar um roteiro frágil, prejudica a imersão e, neste
    caso específico, busca preencher lacunas que deveriam ter sido resolvidas no
    primeiro ato, para que o investimento emocional do espectador no desfecho não
    dependesse de um conhecimento prévio dos acontecimentos retratados. O filme
    precisa funcionar sem muletas, precisa ser atemporal. Outro momento que
    considero desnecessário é aquele em que o grupo de investigadores festeja ao
    som de “Inútil”, do Ultraje a Rigor, a sequência é clichê, destoa do clima que
    havia sido estabelecido e não soa coerente na construção dos personagens
    envolvidos. Fora isto, não há grandes problemas. A introdução em quadrinhos é
    muito boa como ideia e execução, traçando a corrupção desde o encontro de
    Cabral com os índios. A atuação do elenco afinada no mesmo diapasão é louvável,
    algo que era raro, mas que melhorou muito nos últimos anos. Vale destacar a
    forma inteligente com que os alívios cômicos são trabalhados, especialmente a construção
    do personagem do doleiro Youssef (Roberto Birindelli) em cenas como aquela em
    que ele debocha da forma física do delegado vivido por Antonio Calloni,
    culminando mais tarde na sua desconstrução ao ser questionado na cadeia pelo
    motivo de não fazer piada com a chegada de Odebrecht (Leonardo Medeiros).

    Eu gostei do ritmo e, com as ressalvas apontadas acima, considero um importante passo no gênero de thriller político, vertente poucas vezes trabalhada no cinema nacional. Qualquer tentativa da nossa indústria de se aventurar fora da zona de conforto narrativa deve ser incentivada.

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    Octavio Caruso
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