TOP – 2017

    0

    image - TOP - 2017

    1 – Mãe! (mother!), de Darren Aronofsky

    “… O símbolo do criador sendo representado como poeta escritor
    é muito eficiente, criação artística e divina, há uma camada de interpretação
    menos alegórica que permite identificar a trama como um tratado sobre as
    dificuldades do processo criativo e o desejo narcisístico de ser reconhecido
    pelo trabalho. O bebê que é entregue à massa de adoradores, o livro que
    finalmente vai ser lido por outrem, o esforço do autor e o abandono do material
    que agora será adotado por cada leitor. Mas o viés religioso é muito mais
    instigante. O bebê Jesus, os seus ensinamentos, desvirtuados por vários
    interesses baixos, o pastor que fala em nome do criador e faz fortuna vendendo
    sua imagem. O mesmo povo que mata o bebê por negligência, no torpor da adoração
    excessiva, divide ele em pedaços e ingere sua carne em ritual, a celebração da
    falsa aparência, enquanto praticam o oposto do que ele pregou, destruindo a
    casa em sua ruidosa passagem, literalmente estuprando a mãe Terra. A personagem
    vivida por Kristen Wiig, a editora/apóstola, está pronta para utilizar os
    escritos do autor e lucrar em seu nome, uma organização que busca apenas
    conquistar o poder e manter-se relevante, injetando culpa, medo e penitência
    como elementos de controle social e político. E, num gesto de incrível coragem,
    Aronofsky mostra ela no terceiro ato sendo a fria líder armada em uma chacina, as
    guerras santas, o dedo que aperta o gatilho, ou se omite quando é conveniente. Uma
    obra questionadora, que desafia o público e estabelece tensão na medida certa
    para satisfazer até mesmo aqueles interessados apenas no elemento do
    entretenimento. Ao ousar novamente em um produto mainstream, o diretor prova
    que ainda há vida inteligente na indústria…”

    handmaiden620 - TOP - 2017

    2 – A Criada (Ah-ga-ssi), de Chan-wook Park

    “… Adaptando com liberdade poética o livro Fingersmith, de Sarah Waters, o diretor sul-coreano Chan-wook Park demonstra tremendo refinamento estético e implacável ousadia, além de perfeito senso de suspense, sem receio de abraçar o erotismo da obra. Uma experiência que deve ser apreciada com o mínimo conhecimento sobre sua trama…”

     

    el ciudadano ilustre 1 h 201628640x28129 - TOP - 2017

    3 – O Cidadão Ilustre (El Ciudadano Ilustre), de Gastón Duprat e Mariano Cohn

    “… Mas há um elemento que compensou todos os absurdos vividos
    por ele, uma réstia de luz que brotou de onde menos se esperava, o jovem
    atendente do hotel, educado, de fala mansa, que, com toda delicadeza, ofereceu
    seus despretensiosos escritos para a avaliação do visitante. Naquela cortês
    figura que os clientes arrogantes nunca valorizam reside a matéria nobre que
    jamais será reconhecida naquela cidade, o sonho profissional que nunca será
    estimulado, a força de espírito que será pisada até se tornar uma lembrança
    melancólica em uma rotina frustrante, o reflexo no espelho do veterano, a mão
    estendida que implora por ajuda em uma massa de zumbis. E o homem, esgotado e
    pronto para abandonar novamente aquele esgoto a céu aberto, dedica então
    preciosos minutos para oferecer ao garoto o melhor presente de sua vida:
    esperança. Se ele conseguir salvar pelo menos um indivíduo valoroso, a viagem
    terá valido a pena…”

    CLASH ESTHEBAK 02 - TOP - 2017

     

    4 – Clash (Eshtebak), de Mohamed Diab

    “… O diretor egípcio do excelente Cairo 678 retorna em grande estilo, mais maduro e seguro em seu ofício. Nunca um espaço cênico tão reduzido serviu para explorar tantas questões sociopolíticas fundamentais. É uma aula de cinema, com baixo orçamento e um ritmo vertiginoso. Filme de gente grande para gente grande…”

    moonlight a24 poster28640x32529 - TOP - 2017

     

    5 – Moonlight: Sob a Luz do Luar (Moonlight), de Barry Jenkins

    “… Acordar sabendo que a sociedade o rejeita de diversas
    formas, excluído por ser pobre e negro, agredido na escola por ser
    introvertido, internamente incapaz de compreender sua homossexualidade,
    obrigado a medir cada gesto, silenciar impulsos, sem poder contar com a
    estabilidade emocional de uma mãe (Naomie Harris) entregue ao vício em crack,
    esse é o cotidiano do pequeno Chiron. A sua única figura paterna, um traficante
    de drogas que o encontra arredio, fugindo do ataque de seus colegas, alguém que
    enxerga nos olhos da criança a pureza que outrora guiava suas ações, antes do
    mundo o bestializar. O homem, vivido impecavelmente por Mahershala Ali, tem
    consciência de que faz parte da engrenagem que está destruindo o garoto, a
    culpa o humaniza, evitando inteligentemente o estereótipo…”

     

    get out movie orig2822928640x27529 - TOP - 2017

     

    6 – Corra! (Get Out), de Jordan Peele

    “… Ao perceber o carro de polícia se aproximando na cena do
    crime, o rapaz negro, apesar de estar consciente de sua inocência, levanta os
    braços aguardando a injustiça do sistema. O ato de viver em alerta constante, o
    medo de se permitir confiar em alguém, Jordan Peele, roteirista/diretor em sua
    obra de estreia, impressiona pela segurança com que trabalha os elementos
    tradicionais do gênero terror, focando nessas questões sem ser panfletário,
    equilibrando com desenvoltura na equação os alívios cômicos…”

    KNO CNwbT0KlQDH9kWV1 Q28640x30229 - TOP - 2017

    7 – Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake), de Ken Loach

    “… O relacionamento de amizade formado entre Daniel, Katie e
    seus filhos, elemento que brota naturalmente a partir de um simples gesto de
    carinho dele com a jovem, um olhar atento quando todos fingiam não perceber sua
    presença, proporciona momentos de linda delicadeza e refinado simbolismo, como
    a estante feita à mão na esperança de que suporte no futuro o peso dos livros
    acadêmicos da amiga, a salvação pela cultura…”

     

    la la land poster28640x33829 - TOP - 2017

    8 – La La Land: Cantando Estações (La La Land), de Damien Chazelle

    “… A cena inicial sintetiza uma das propostas do filme, a
    proposta mais óbvia, a celebração do gênero musical, a importância de se
    apreciar a beleza de suas convenções. O ato antinatural de contar uma história
    utilizando o canto e a dança, a reclamação mais comum dentre os detratores de
    musicais, apenas agrega mais possibilidades criativas. É preciso ter
    sensibilidade. A sociedade está cada vez mais insensível, impaciente e
    intolerante, mas a música está sempre presente, de alguma forma, até mesmo no
    alarme de mensagens do celular. Ao optar por dar o tom da trama mostrando
    vários motoristas entretidos musicalmente, enquanto aguardam o trânsito fluir,
    Damien Chazelle evidencia a onipresença melódica que é capaz de nos conduzir
    para a infância, ou ajuda a relembrar amores perdidos e marca momentos
    especiais, nos faz rir e chorar, em suma, enverniza a vida com a matéria de que
    são feitos os sonhos…”

     

    hero Big Sick 2017 - TOP - 2017

    9 – Doentes de Amor (The Big Sick), de Michael Showalter

    “… O choque de culturas já seria interessante o suficiente, a
    angústia do rapaz que é guiado pelos pais egoístas à uma escolha profissional
    indesejada e encontros românticos arranjados em que o amor é o elemento menos
    importante na equação. Se ele demonstrar interesse em uma garota que não seja
    de sua cultura, a família se sente envergonhada e rompe a relação de afeto com
    o filho. É a tradição de seu país, assim como a oração diária que ele finge
    fazer enquanto checa os vídeos engraçados na internet, um cabresto
    social/religioso que pode ter profunda relevância para seus pais e irmãos, mas
    que não significa absolutamente nada em sua vida. A forma como o texto orgânico
    trabalha a questão, aliada à entrega incrivelmente natural do elenco, faz com
    que em poucos minutos o espectador esteja conectado emocionalmente aos
    personagens, o que é essencial para a eficiência narrativa do ponto de virada,
    quando o fator da imprevisibilidade conduz a trama além das convenções usuais
    do gênero da comédia romântica…”

     

    frantz francois ozon28640x32029 - TOP - 2017

    10 – Frantz, de François Ozon

    “… Quando é revelado o real motivo que levou Adrien a visitar a
    lápide de Frantz, o filme ganha contornos poéticos, revelando-se um bonito
    conto sobre o poder do perdão e da mentira como forma de arte. Os pais de
    Frantz sorriem mantidos na ignorância plena, Anna enfrenta seu medo e revela
    seu sentimento, algo tão forte que sequer a rejeição enfraquece, muito pelo
    contrário, no delicado desfecho, consciente do efeito curador da mentira
    contada por Adrien, com a fotografia colorida ressaltando o futuro promissor
    que se revela no horizonte, livre da culpa, a jovem agradece à pintura por
    mantê-la viva…”

    RECOMENDAMOS


    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Please enter your comment!
    Please enter your name here