“Nem Sansão Nem Dalila”, um dos melhores momentos de Oscarito

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Nem Sansão Nem Dalila (1954)

O que aconteceria se a cabeleira de Sansão fosse uma peruca?
O barbeiro Horácio (Oscarito) sofre um insólito acidente e vai parar no Reino
de Gaza, muitos anos antes de Cristo. Lá, ele conhece Sansão (Wilson Viana)
cuja força descomunal vinha de uma “milagrosa” peruca. Ao trocar a
tal peruca por um isqueiro, ele se transforma em um homem forte e poderoso,
passando a reinar como um ditador bonachão, uma versão caricatural do populismo
de Getúlio Vargas. Ao explicar o que são eleições políticas para o rei, o
personagem de Oscarito afirma sem pensar duas vezes: “eleição, votação,
marmelada”. Sem qualquer sutileza, ele emula os maneirismos de Vargas ao
discursar no terceiro ato. Os diretores nacionais do Cinema Novo, celebrados
por suas obras quase sempre umbilicais e pretensiosas nas décadas seguintes
ganhariam prestígio, mas você encontra muito mais coragem, ironia inteligente e
senso artístico nas chanchadas tão desprezadas pelos críticos da época, que usualmente
se referiam às comédias nacionais como “abacaxis”.

“Votai em Sansão, um homem de ação.” (slogan da eleição do
personagem de Oscarito)

A presença encantadora das belíssimas Eliana Macedo (Dalila)
e Fada Santoro (Miriam) garante momentos preciosos, como o divertido improviso
que transforma a escrita na pedra com o martelo em instrumento de percussão
para o gingado de Miriam. Cyll Farney esbanja carisma e até brinca no terreno de
Errol Flynn, encenando um duelo de espadas coreograficamente eficiente. Neste
clássico da Atlântida, a produção mais cara do estúdio até aquele momento, o
diretor Carlos Manga dirige um roteiro do grande Victor Lima, genial autodidata que
começou na crítica (na revista “Cena Muda”) e foi responsável por filmes como “Os
Cosmonautas” e o excelente “Pistoleiro Bossa Nova”, dois títulos que constam
neste ciclo que estou iniciando. O elemento de sátira ao “Sansão e Dalila” de
Cecil B. DeMille trouxe frescor ao gênero, abriu novas possibilidades
criativas, mas há também inspiração forte de “O Mágico de Oz” na trama,
especialmente em seu desfecho.

“Fica estabelecido que todos os dias do ano serão feriado,
com exceção do Dia do Trabalho.”

O maior mérito cômico está no jogo de palavras e na maneira
como Oscarito as defende em cena. “Tô com uma idiossincrasia terrível hoje.”, “Onde
fica o palácio de esparadrapo? Digo, de Gaza.” Ao ter seu primeiro vislumbre da
Palestina, ele garante com veemência: “Isso aqui é Jacarepaguá no duro, eu
conheço!” O hispano-brasileiro de origem circense era uma força da natureza,
caso tivesse nascido em Hollywood, seria reconhecido internacionalmente e
aplaudido até hoje por todas as gerações. Triste sina do artista brasileiro,
depender da memória de seu povo.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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