“Com Amor, Van Gogh”, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman

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Com Amor, Van Gogh (Loving Vincent – 2017)

Esta pioneira animação rotoscópica estruturada a partir de pinturas a óleo, o resultado do trabalho de mais de 125 pintores, 65 mil frames, 10 anos de produção, consegue captar com extrema sensibilidade a essência da arte de Vincent Van Gogh, artista que se profissionalizou em apenas 8 anos de dedicado estudo e profundo amor pelo que fazia, produziu mais de 800 telas, mas só conseguiu vender 1 durante a vida.

Ao ver a bela homenagem, o árduo esforço da equipe em traduzir nas imagens o olhar do mestre, a forma como ele enxergava o mundo, mimetizando seu estilo na técnica que incorpora 120 de suas telas mais famosas, a emoção transborda naturalmente, o legado vivo e sempre relevante do pai da arte moderna, alguém que faleceu acreditando ser um fracassado, a escória do mundo. Triste demais, as cenas conseguem transmitir o coração apertado do homem alquebrado que esquivava por instinto da crueldade humana, porque não conseguia mais revidar. Todo aquele que se destaca positivamente desperta muita inveja, sentimento danoso especialmente na área cultural, já que os envolvidos primam pela insegurança, a coragem silenciosa daqueles que tocam o solo da vida como desbravadores que encaram terreno desconhecido, enquanto a maioria prefere seguir as regras do sistema e aguardar pacientemente o fim do expediente.

O roteiro abraça a melancolia em sua estrutura alicerçada em flashbacks em preto e branco, abordando momentos cruciais na vida do homenageado, desde sua infância, enquanto acompanhamos em cores vibrantes o jovem Armand Roulin (Douglas Booth), filho de um carteiro (Chris O’Dowd) que era muito amigo do pintor, que viaja para Paris com a missão de entregar uma carta de Van Gogh (Robert Gulaczyk), que havia acabado de falecer aos 37 anos, para o irmão Theo. Ao descobrir que o destinatário também havia morrido, a missão perde o sentido, mas o rapaz fica fascinado pelo mistério do aparente suicídio e decide conhecer melhor o homem através de conversas com aqueles que mantiveram contato com ele nos anos anteriores. Ele, que inicialmente havia sido levado pela curiosidade sobre a morte, acaba descobrindo e, por conseguinte, sendo irreversivelmente impactado pela grandeza de suas atitudes em vida, a dignidade que o acompanhou até o último suspiro.

Vale destacar a excelente opção de utilizar nos créditos finais a linda canção “Vincent”, composta por Don McLean, em bonita versão cantada pela britânica Lianne La Havas. A letra sintetiza com perfeição a importância de se manter íntegro, ainda que muitos tentem quebrar seu espírito. A vitória é a real imortalidade, algo que os medíocres jamais irão conquistar. “Este mundo nunca foi pensado para alguém tão bonito quanto você”.

No vídeo abaixo, singela homenagem, uma gravação minha cantando “Vincent” (com opção de legendas em português), registro feito em 2014.


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Octavio Caruso
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