“The Post – A Guerra Secreta”, de Steven Spielberg

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The Post – A Guerra Secreta (The Post – 2017)

Na linguagem usual de cinema, “The Post” pode ser considerado um prequel do clássico setentista “Todos os Homens do Presidente”, de Alan J. Pakula, com Tom Hanks interpretando o editor executivo do The Washington Post, Ben Bradlee, outrora vivido por Jason Robards. Mas é Kay Graham, em mais uma impecável atuação de Meryl Streep, quem recebe justa maior atenção desta feita, já que teve papel fundamental no processo de divulgação dos Papéis do Pentágono, documento que conduziu a opinião pública ao ceticismo político no calor da guerra do Vietnã, zeitgeist que possibilitou o cenário da
revolta contra os escândalos do caso Watergate e a renúncia do presidente Nixon.

O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer não se esquiva da óbvia crítica atual, traçando paralelo com os absurdos de Trump em seus infantis ataques à liberdade da imprensa, mas poderia ter pensado em soluções melhores para algumas situações, como na cena em que Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) tenta sair com os documentos escondidos na mala e trava diante dos guardas, quase causando riso involuntário. Os diálogos podem ser excessivamente expositivos em alguns momentos, mas a sutileza nunca foi característica dominante nos projetos de Spielberg, logo, isto não prejudica o ritmo da obra. A fotografia cinza de Janusz Kamiński privilegia enquadramentos limpos, planos longos que estabelecem tensão até mesmo em situações teoricamente triviais, permitindo que o espectador possa focar sua atenção no que está sendo dito e, mais importante, naquilo que se insinua nas entrelinhas.

Gosto bastante do alívio cômico representado pela menina, filha de Bradlee, que é mostrada inocentemente vendendo limonada na porta de casa, enquanto o pai e seus colegas repórteres se esforçam arduamente para organizar os documentos. Ela, ao perceber que há potencial de intensificar as vendas, já que o desespero dos adultos os deixa sedentos, não pensa duas vezes, carrega sua banca para dentro de casa. A participação dela pode parecer despretensiosa dentro de uma cena crucial, mas faz perfeita analogia com o comportamento inicial do pai em seu escritório, quando recebe a informação de que os adversários do “The New York Times” serão perseguidos pelo governo após a publicação da matéria. Ele fica feliz por não estar envolvido, e, pior, enxerga no evento a possibilidade de ganhar terreno com a queda do outro jornal, veículo com posição estabelecida no mercado, enquanto o “The Post” lutava ainda para se tornar relevante. Bradlee cogitou naquele segundo de ganância o monopólio, ao invés de pensar na nação. A venda dos jornais, o sensacionalismo das matérias, quando o dinheiro toma a dianteira na equação, a mentira sedutora pode se tornar verdade, a função da imprensa perde o sentido.

É quando Kay (Streep), a editora responsável por manter o sonho profissional da família vivo, uma mulher tentando firmar seu pé em um ambiente machista, alguém que dependia do interesse de investidores, contra todas as probabilidades, coloca tudo em risco para defender o que é correto. O arco narrativo dela é fascinante, de insegura à símbolo de íntegra fortaleza ética, sem perder a ternura e a feminilidade. Ela sabe que não se pode negociar com terroristas, não se pode justificar o injustificável, a omissão apenas avalizaria a censura, algo que prejudicaria todos os profissionais da área. O lucro deixa de ser o mais importante, já que os investidores correm ao primeiro sinal de enfrentamento com o presidente da nação, o prejuízo é certo, a rebeldia trará consequências, mas a imprensa só
existe com liberdade, somente a verdade granjeia respeito.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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