“Viva – A Vida é Uma Festa”, de Lee Unkrich e Adrian Molina

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    Viva – A Vida é Uma Festa (Coco – 2017)

    A Pixar teve um longo período inicial de puro brilhantismo,
    de 1995 a 2010, depois entregou produtos medianos, parecia que haviam substituído
    a sensibilidade autoral passional pelo lucro imediatista. “Divertida Mente”, de
    2015, resgatou a esperança em grande estilo, mas ainda não transbordava aquele
    senso maravilhosamente lírico que só pode ser comparado no gênero aos trabalhos
    de Hayao Miyazaki. Com “Viva – A Vida é Uma Festa”, obra-prima impecável, o
    estúdio alcança o mesmo nível de seus primeiros esforços, um roteiro que
    sintetiza diversos temas importantes e injeta uma carga generosa de emoção em
    um conto sobre desilusão ambientado na terra dos mortos, vale ressaltar, conceitos
    nada convencionais em animações infantis e que são inseridos de forma muito
    corajosa.

    O pequeno Miguel (Anthony Gonzalez/Arthur Salerno) venera
    seu ídolo, o falecido cantor Ernesto de la Cruz (Benjamin Bratt/Nando Pradho),
    mas precisa esconder este sentimento de sua família, que tem tradição no ramo
    da sapataria e um ódio profundo por qualquer manifestação musical, já que seu
    tataravô abandonou a família para seguir carreira artística. O menino cresceu
    escutando estas histórias fundamentadas na amargura e na incompreensão, mas seu
    espírito se recusa a ser dominado por impulsos baixos, ele enxerga fissuras no
    muro de lamentação que seus pais construíram em sua vida, a identificação com o
    ídolo é a luz que invade pela fresta, o estímulo que aquece e conforta. O valor
    da memória, leitmotiv do filme, é simbolizado pelo respeito com que a criança
    trata o artista que já havia falecido antes de seu nascimento. Ele irá contar
    com a ajuda de Hector (Gael García Bernal/Leandro Luna), um desajeitado
    esqueleto que sonha conseguir visitar a terra dos vivos. Sem revelar muito, já
    que qualquer informação neste caso prejudica bastante a experiência, eu
    ressalto a reviravolta inteligente do segundo ato, a maturidade com que o
    roteiro evita os artifícios de chantagem emocional usuais em animações
    infantis, subvertendo as crenças do menino e, por conseguinte, do público. Alguns detalhes são geniais, perceba como a música-tema é trabalhada, gradativamente simplificada e ressignificada. E
    destaco também a forma respeitosa com que a cultura mexicana é abordada,
    intrinsecamente relacionada ao desenvolvimento narrativo, algo infelizmente
    raro em produções norte-americanas.

    A catarse emocional dos últimos dez minutos é profundamente
    impactante porque representa a celebração de valores humanos que, especialmente
    nos tempos em que vivemos, parecem ter sido abandonados. As lágrimas não resultam
    de esforços audiovisuais manipulativos tecnicamente calculados, já que o
    espectador comprou desde os primeiros minutos a autenticidade daqueles
    personagens, o mérito é da qualidade do texto que opera em diversas camadas de
    interpretação. O amor transcende a presença física, não faz sentido temer a
    morte, lutar contra o inevitável, o verdadeiro malefício envolve o ato de
    esquecer. As lembranças ternas são (literalmente na trama) a ponte que une o
    tangível possível e a eternidade que só ganha valor exatamente por ser desafiada
    pela finitude.

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    Octavio Caruso
    Viva você também este sonho...

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