A simbologia lúdica de “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro

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A Forma da Água (The Shape of Water – 2017)

As referências no elegante roteiro de Guillermo del Toro e Vanessa Taylor vão de “King Kong”, “O Monstro da Lagoa Negra” e “A Bela e a Fera”, passando pelo relacionamento amoroso nos quadrinhos entre o Monstro do Pântano e Abby, na fase escrita por Alan Moore, até mesmo “Splash – Uma Sereia em Minha Vida”, o cineasta mexicano confirma em seu novo filme todas as qualidades que já demonstrava desde seu início, na pérola vampírica “Cronos”, de 1993.

Não há intenção de confundir o público, a trilha sonora marcante de Alexandre Desplat evoca a todo momento o tom de fábula, coerente melodicamente à doçura que a trama suscita, não há amargura neste conto ambientado na década de cinquenta, diferente de projetos tonalmente similares como “O Labirinto do Fauno”, ou “A Espinha do Diabo”, apenas a pura expressão do amor entre uma criatura marinha capturada e a jovem muda responsável pela limpeza do laboratório. Mas a beleza da mensagem vai além desta rasa compreensão romântica, “A Forma da Água” é um tratado alegórico sobre a importância de
verdadeiramente enxergar o outro, buscar a beleza única de cada indivíduo, conceito cada vez mais esquecido em um mundo moderno tão frio e vazio.

É estabelecida já na montagem dos primeiros minutos a rotina desinteressante da personagem vivida brilhantemente por Sally Hawkins, alguém que se acostumou a ser vista como peça defeituosa e dispensável na engrenagem da vida, apenas uma estatística no quadro de funcionários, ela consegue escutar todos os comentários maldosos, mas não tem voz para revidar. As cicatrizes em seu pescoço, memória traumática da dor, razão de seu silêncio. Seus únicos amigos são almas tão perdidas quanto ela, vulneráveis indivíduos à beira da desistência social, a colega negra que vive um casamento de aparência e um
artista homossexual frustrado que tem consciência de que a sociedade nunca o aceitará. Os três não se adequam aos padrões, Elisa (Hawkins) não é símbolo de beleza, Zelda (Octavia Spencer) está bastante acima do peso e sofre na pele diariamente a estupidez racista abrasiva na época, Giles (Richard Jenkins) está com dificuldade de aceitar os sinais do tempo em seu rosto. O antagonismo, representado pelo personagem do sádico agente do governo, vivido por Michael Shannon, abraça sem medo a caricatura, ele é o mal encarnado, a sua podridão interna é visualmente trabalhada nos dedos da mão necrosados, não há qualquer sinal de redenção em seu caminho.

Há um elemento de autocelebração do cinema enquanto linguagem que, apesar de se traduzir em uma sequência onírica belíssima em preto e branco, intensamente emocionante, parece não se encaixar organicamente na trama, alguns podem argumentar que foi uma forçada de barra desnecessária para aumentar as chances da obra nas premiações, mas é uma opção que faz sentido na evolução do cineasta, gesto exultante de gratidão, uma encantadora homenagem à fonte criativa em que ele bebeu no início de sua carreira. A inocência da cena contrasta radicalmente com a crueza do mundo em que os personagens habitam, macrocosmo cinza de crescente pessimismo em que se prefere explorar sem escrúpulos, ao invés de desejar aprender com o desconhecido, o medo subjugando o fascínio.

Ao final da obra, toque brilhante, o símbolo da dor será ressignificado, sinal poderoso de esperança, o diretor oferece uma possível resposta para reverter o caos. Com muita inteligência e sensibilidade, o corajoso roteiro se mostra, acima de tudo, assustadoramente atual.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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