Analisando o problema por trás da pergunta: “Tem na Netflix?”

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A pergunta aparece com frequência em comentários de postagens sobre cinema, mas enxergo nela mais do que apenas o elemento precioso da curiosidade.

O indivíduo verdadeiramente interessado busca estar minimamente antenado, costuma alimentar o hábito da leitura de críticas, gosta de conversar sobre o assunto, por conseguinte, sabe quando o texto é sobre um projeto que está sendo lançado nas salas, ou aborda uma produção da década de 90 que já passou na televisão umas mil vezes. Numa comparação simples, o torcedor que é apaixonado por futebol sabe a escalação atual de seu time do coração.

Eu vivi o período das trevas, sem internet, caçando filmes em locadoras de vídeo, sonhando com imagens de obras retratadas em revistas de cinema, aguardando meses para conseguir um título raro em VHS, arqueologicamente procurando em sebos e bibliotecas as informações sobre os artistas e suas filmografias.

Hoje, com a internet, a pessoa genuinamente interessada pode encontrar praticamente qualquer filme (em variadas possibilidades, por vezes no Youtube, Torrent, até por download direto) apenas digitando no Google o título, acrescido da palavra “legendado” ou, caso seja fluente na língua do filme, “watch online”.

Se você procurou e não encontrou nas plataformas de streaming, NET NOW, Claro Vídeo, Looke, entre outras, depois pesquisou no Mercado Livre se tinha em DVD (caso o título esteja fora de catálogo), sem sucesso, o caminho é a internet. Eu faço isto sempre, garanto que funciona, até mesmo nos casos mais obscuros, claro, com um pouco de paciência. E, apesar disto, a pergunta que sempre recebo é: “Tem na Netflix?”. A Netflix é apenas uma opção, bastante fraca no que tange clássicos, por exemplo, a plataforma é uma facilidade na arte do garimpo cultural, algo que os cinéfilos da minha geração não tiveram.

Aprofundando a reflexão, o ato de perguntar publicamente algo cuja resposta pode ser encontrada em questão de segundos pela própria pessoa em alguns toques na ferramenta de “Busca” da plataforma, corrobora o argumento da preguiça intelectual, logo, a tentativa de disfarçar o desinteresse galopante posando de cinéfilo devotado nas redes sociais. Como sempre reforço, a valorização do “parecer ser”, ao invés do mais trabalhoso “ser”. E, como crítico, creio que há conexão entre este comportamento virtual e, por exemplo, a constatação da deselegância e do desrespeito do público brasileiro na experiência coletiva da sala de cinema.

Enquanto a cultura for consumida cegamente apenas como fast-food, tapa-buraco, tolo passatempo, nós iremos dividir sessões com toques ininterruptos de celulares, conversas animadas sobre parentes exóticos de estranhos e uma quantidade absurda de lixo acumulado nas poltronas, em suma, variações terríveis da ausência de educação e empatia.

Você REALMENTE quer ver o filme?

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Perfeito. Como sempre. Esses dias, fui ao cinema assistir “Aquaman”.
    Fui a um cinema conhecido por ter a imagem escura (conhecido apenas por mim, que reparo nesses detalhes). O cinema que possui uma imagem melhor, perto da perfeição, fica longe, preciso pegar dois ônibus pra chegar.
    Ok, primeiro erro. Um espetáculo visual como “Aquaman” mereceria uma imagem com melhor qualidade. Em lugares assim, o nível educacional (entenda como quiser) cai absurdamente. E com ele, o respeito e as convenções vão junto.
    Iniciado o filme, algo em torno de cinco a dez minutos de projeção, o pai de uma família que inclui esposa e criança de um ano no máximo, resolve tirar uma “selfie” da família em questão, sentadinhos no cinema. A necessidade imbecil de se autoafirmar visualmente para a sociedade. Reclamei audivelmente. Contrariado, o pai olhou pra trás, me encarando. Como queria curtir o filme sem mais interrupções, ignorei. Desculpe quem pensa diferente, mas esse país não tem mais jeito.

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