“Desencanto”, de David Lean, um dos romances mais lindos do cinema

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Desencanto (Brief Encounter – 1945)

Não é exagero inserir esta obra-prima do diretor David Lean em uma lista dos filmes mais românticos de todos os tempos.

Adaptado da peça de Noël Coward, o tema foi absurdamente corajoso para o conservadorismo dominante da época, abordando o caso de amor proibido que desabrocha entre uma dona de casa (Celia Johnson) e um médico (Trevor Howard), ambos casados, em sucessivos encontros furtivos em um café na estação de trem. A infidelidade conjugal, questão espinhosa, nunca foi tratada com tanta sensibilidade e honestidade.

Ao reconhecer que o coração encontra maneiras de suprir suas necessidades, músculo incapaz de ser domado, o roteiro desarma o espectador de seus preconceitos e retira o manto de ilegalidade que, por si só, já evidencia o caráter antinatural do ato de tentar controlar o complexo sentimento com um contrato. O cenário dos encontros é pleno em simbolismo, reforçando a satisfação imediatista de cada olhar trocado.

Algo que se inicia sem pretensão alguma, pura amizade, acaba evoluindo suavemente para o abraço de dois náufragos. O casal reconhece que é impossível sonhar com mais do que aqueles preciosos momentos, mas a experiência basta, a intimidade conquistada a partir do real interesse pelo outro, não a cumplicidade artificial acumulada em anos de convivência com um estranho.

A angústia na voz da mulher, cuja narração nos conduz na trama em uma confissão silenciosa, revela implicitamente que, apesar de estar em uma situação financeira confortável, o padrão familiar desejado por todos, ela se sentiu em algum momento na necessidade de se adequar existencialmente na vida a um aquário menor, o brilho em seu olhar, quando percebida pelo médico, reflete a esperança que se recusa a ser apagada em seu interior.

O seu marido (Cyril Raymond) é gentil, divertido, nobre, não deixa faltar nada, mas os diálogos deixam transparecer sutilmente o desinteresse, travestido de cordialidade excessiva. Ele a agrada para manter o relacionamento vivo na sociedade. E, como o filme mostra, o amor não é despertado somente pela ausência/carência, pode surgir naturalmente, sem estar sendo procurado, sem motivo aparente, como precioso diamante lapidado na rocha.

A emoção profunda do rápido toque de um dedo secretamente acariciando a mão do outro, a incerteza encapsulada em cada despedida, David Lean pode ter entrado para a história do cinema por seus épicos, como “Lawrence da Arábia”, “A Ponte do Rio Kwai” ou “Dr. Jivago”, mas ele ganhou meu coração na adolescência com esta pérola minimalista inesquecível.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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