“O Selvagem”, um gatilho para as maiores mudanças culturais

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O Selvagem (The Wild One – 1953)

O corajoso Stanley Kramer produziu esta versão livre do famoso incidente ocorrido na pacata cidade de Hollister, Califórnia, que chocou os pais em 1947, após várias gangues de motoqueiros invadirem um evento festivo, tocando o terror por dois dias, exibindo generosas doses de vandalismo.

Jovens marginalizados que haviam voltado da guerra e, sem grana, adaptaram suas surradas jaquetas de couro, trocando os nomes de seus aviões nas costas pelos símbolos de seus grupos de motociclistas. A imagem forte transmitia inegável ameaça, especialmente considerando o nível de caretice dos adultos norte-americanos da época. É claro que a imprensa lucrou alimentando os abutres, exagerando e até mesmo fabricando registros assustadores em fotos que estampavam as manchetes. O cinema não perdeu tempo, o clássico sacramentou o nome de Marlon Brando no panteão dos grandes atores mundiais. O curioso é que, apesar de ser um alerta crítico moralista que apontava a desilusão dos encrenqueiros como reflexo de suas angústias existenciais, o roteiro acabou incitando a garotada à rebeldia contra os pais e contra o sistema. O uniforme dos personagens atravessou fronteiras, influenciando até mesmo os adolescentes brasileiros, que, em pleno calor tropical, portavam seus canivetes, faziam cara de mal, apostavam rachas nas estradas e suavam em bicas tentando imitar seus ídolos.

A cena inicial, após um letreiro imposto pela censura do Código de Produção enfatizando a desaprovação da conduta dos personagens, seguindo a narração de Johnny Strabler (Brando), com as motos vindo rapidamente na direção da câmera, dá o tom de perigo que nem mesmo a óbvia projeção traseira, emoldurada pelos créditos, consegue anestesiar. O grupo chega na cidade e, com os rostos impassíveis, atravessam calmamente a pista de corrida, obrigando o biker competidor a frear assustado. E, claro, minutos depois o troféu é roubado na cara dura por um dos rapazes. Não há tentativa de aliviar a responsabilidade de seus atos colocando a culpa em outrem, ou nas condições em que vivem, o roteiro evidencia a todo momento que a baderna faz parte da índole dos rapazes. Atitude selvagem, subversiva, indomável, que serviria de inspiração imediata para James Dean, Elvis Presley e a geração rock’n’roll, mas também desembocaria dezesseis anos depois no inesquecível “Sem Destino”, de Dennis Hopper, até ser revisitada como pastiche no musical “Grease – Nos Tempos da Brilhantina”, protagonizado por John Travolta e Olivia Newton-John, em 1978.

“O Selvagem”, dirigido por László Benedek, está longe de ser perfeito, a subtrama romântica é rasa, prejudicada pela inexistente química entre Brando e a bela Mary Murphy, que vive uma garçonete comportada, antítese que irá representar a redenção do líder da gangue no terceiro ato. A trama envelheceu razoavelmente bem, mantendo seu charme. Mais que um simples filme, o gatilho para muitas das maiores mudanças culturais dos últimos cem anos.

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Octavio Caruso
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