“À Sombra de Duas Mulheres”, o filme mais truffautiano de Philippe Garrel

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À Sombra de Duas Mulheres (L’ombre des femmes – 2015)

A curta duração, pouco mais que sessenta minutos, potencializa a objetividade brutal do tema, um triângulo amoroso entre um documentarista desencantado com a rotina pessoal e profissional, sua parceira tradutora e Elisabeth (Lena Paugam) uma jovem estagiária em um acervo de cinema. A frieza domina cada gesto, está na postura corporal abatida do homem e nos olhares perdidos da esposa, indiferença que vai acabar eventualmente utilizando o desejo imediatista como muleta para preencher as lacunas existenciais.

Pierre (Stanislas Merhar) muda completamente, passando a prestar atenção nos mínimos detalhes comportamentais da esposa após descobrir que ela despertava tesão em outrem. Até mesmo o simples sorriso cortês que precede os tradicionais beijos no rosto em um encontro casual na rua ganhou especial significado. É como se ela não existisse antes. Manon (impecável Clotilde Courau, força da natureza) se alegra com esta nova atitude, ignorando que ela apenas reforça a maneira reducionista como é percebida por ele.

(Spoilers no parágrafo abaixo)

O leitmotiv da obra encontra no desfecho a sua representação mais explícita, a capacidade da arte ser moldada diante da realidade dolorosa. No funeral do homenageado do documentário, a mulher revela que o soldado da resistência vivia uma farsa, herói de barro da Segunda Guerra Mundial que traiu seus colegas e estava recebendo todas as honras, já que a sociedade nunca se preocupou em examinar minuciosamente, questionar seus discursos, satisfazendo-se apenas em admirar suas medalhas, aplaudir seu aparente status. Assim como no microcosmo do relacionamento do casal, a atenção foi despertada apenas pelo flagelo.  Todo o trabalho exaustivo teria sido em vão, mas eles decidem simplesmente modificar a abordagem, da elegia audiovisual respeitosa para uma crítica cínica evidenciando suas mentiras. Da mesma forma, apesar da infidelidade mútua, os dois moldam positivamente o sentimento no reencontro. E, pela primeira vez no filme, envolvidos num abraço efusivo, eles se mostram vivos, instintivos, verdadeiramente felizes.

(Fim dos spoilers)

O usual tom minimalista do diretor pode incomodar quem não está acostumado, o ritmo no primeiro ato é bastante problemático, mas a última meia hora é emocionalmente recompensadora.

Cotação: ggggjjjk - "À Sombra de Duas Mulheres", o filme mais truffautiano de Philippe Garrel

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