“O Rei do Show” e sua crítica à teatralidade vazia da alta sociedade

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O Rei do Show (The Greatest Showman – 2017)

“A arte mais nobre é fazer os outros felizes.” (P.T. Barnum)

Houve uma discussão na época do lançamento do filme apontando mentiras na representação do protagonista, P.T. Barnum (Hugh Jackman), questionando as atitudes dele, como, por exemplo, a exploração de pessoas com deficiências físicas em seus espetáculos. Tudo uma grande bobagem típica de nossos tempos, já que não leva em consideração o contexto do período histórico em que ele viveu. Não precisamos ir longe, as piadas dos nossos pais na mesa de jantar, apenas duas décadas atrás, poderiam justificar hoje processos judiciais extenuantes. E, mais importante, os chatos de plantão ignoram que o visionário showman ajudou a mudar positivamente a percepção do público sobre as atrações com as chamadas “aberrações”, que eram consideradas desagradáveis ​​e de péssima reputação. Ele abraçou orgulhosamente a expressão depreciativa de um crítico pedante, transformando o seu “circo” em local de celebração, orgulho e alegria.

Na cena em que o grupo é convidado ao palácio de Buckingham, apesar de serem apresentados com perceptível desconforto como as “peculiaridades”, o enquadramento da câmera, direção de arte e figurino ressaltam a figura da rainha, acompanhada de seu cãozinho, como a verdadeira esquisitice no cenário, uma teatralidade tola e que, ao contrário dos artistas, serve apenas para ostentar os privilégios do poder. A crítica é poderosa: Qual “circo” é mais patético? Quando Barnum, seduzido pelos aplausos da alta sociedade, decide abandonar a esposa, filhas e sua equipe, para investir tudo na elegante cantora sueca de ópera Jenny Lind (Rebecca Ferguson), ele prova o gosto amargo do teatro vazio das aparências. O jovem Philip Carlyle (Zac Efron), personagem criado pelo roteiro, reforça ainda mais este leitmotiv. Nascido da riqueza, acostumado a ser visto com apreço exagerado por estranhos oportunistas, encontra na rebeldia do empresário um caminho alternativo e atraente, longe da manipulação abusiva dos pais. Apaixonado pela bela trapezista Anne Wheeler (Zendaya), relacionamento interracial que potencializa a discriminação sofrida por sua atitude, ele vai aprender que ser marginalizado em um hospício é um ótimo ponto de partida para a evolução interna.

O musical dirigido por Michael Gracey e roteirizado por Jenny Bicks e Bill Condon, conta com o talento dos compositores Benj Pasek e Justin Paul, que captaram perfeitamente a proposta da obra, unindo tradição, valores antigos e uma pegada sonora moderna. Canções como “A Million Dreams”, “Rewrite the Stars” e, especialmente, “This is Me”, interpretada pela mulher barbada (Keala Settle) na sequência mais emocionante do filme, simbolizando a declaração de liberdade dos artistas desprezados, cumprem muito bem sua função na trama, avançando com preciosismo coreográfico e refinada criatividade a narrativa, alicerçada pelo carisma do elenco.

Cotação: 4 stars - "O Rei do Show" e sua crítica à teatralidade vazia da alta sociedade

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Dos filmes atuais, este, sem sombra de dúvida é o tipo de filme que mais me atrai.
    A paixão avassaladora de Barnum por seu ideal de vida, aliada à inocência e pureza do amor da infância, amor esse que impulsiona o desabrochar do showman , é emocionante.
    As músicas caem como luva em casa fase do filme. Difícil escolher entre ” Million Dreams, ” Rewrite the Stars”, por exemplo.
    ” From now on” então….nossa! E que cena!
    Sem dúvidas,um filme para guardar com muito carinho seja na cabeceira ou no coração.
    Belíssima crítica,como sempre, Caruso.👏👏👏👏👏

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