Quer gargalhar sem parar? Veja “Parente é Serpente”, de Mario Monicelli

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Parente é Serpente (Parenti Serpenti – 1992)

A ceia de Natal está pronta. A família Colapietro irradia paz e tranquilidade. A casa paterna se enche de risos, gritinhos de crianças, muitas lembranças em comum, muitos segredinhos, histórias picantes e fofocas para trocar. Antecipando as delícias da mesa, todos esperam o momento de começar a mais esperada comemoração do ano. Então, a matriarca da família anuncia que ela e o marido estão muito velhos para continuarem vivendo sozinhos e decidiram ir morar com um de seus filhos ou filhas. É claro que ninguém quer ficar com os idosos, e a festa ameaça virar uma autêntica batalha entre irmãos, todos ansiosos para se livrarem da incômoda responsabilidade.

Esta comédia deliciosa foi minha introdução ao cinema de Monicelli aos quatorze anos de idade. Na minha visita semanal à locadora de vídeo, o gerente me indicou esta fita que, pela arte da capa, passava uma péssima impressão, parecia aquelas animações eróticas tolas. O argumento que me fez confiar nele foi a semelhança com o estilo do Monty Python, que eu já amava. Em retrospecto, creio que ele tenha feito confusão, as aventuras hilárias de Brancaleone, sim, poderiam ser comparadas com as obras do grupo britânico. Mas, não importa, agradeço demais à ele do mesmo jeito. Quando inseri o VHS no aparelho, foi amor à primeira vista. No dia seguinte, fiz minha família toda sentar no sofá e ver comigo. O senso de humor do diretor e do roteiro de Carmine Amoroso cativa já nos primeiros minutos, captando uma aura nostálgica legítima, mérito da narração pelo ponto de vista do menino, envolta no mais desavergonhado deboche. O desfecho é mordaz, humor negro em potência máxima, mas o primeiro ato é conduzido com muita leveza, preparando o espectador para o impacto sensorial dos últimos trinta minutos, quando o filme desconstrói brutalmente a imagem da tradicional “família italiana”.

O aspecto mais interessante, aquele que somente melhora em revisão, é a camada crítica que expõe uma terrível realidade, o desgaste do amor parental na sociedade. Se na época do filme já estava ruim, hoje em dia, com os avanços da tecnologia, a convivência se tornou ainda mais complicada, os encontros são esporádicos, os rituais cada vez menos valorizados. O afeto verdadeiro raramente existe, apenas a repetição de gestos e palavras costumeiras, torcendo para que chegue logo a hora de voltar para casa. O individualismo é a palavra de ordem. Até mesmo o discurso dos mais conservadores é frágil, escorado na muleta religiosa envernizada pela hipocrisia. Monicelli evidencia que o relacionamento familiar contemporâneo é alimentado pela conveniência. A cenas induzem o riso pela desconfortável identificação. Os personagens adultos são psicologicamente rasos, previsíveis, facilmente compreendidos pela criança, que enxerga sempre além das aparências, antecipando suas atitudes.

“Parente é Serpente” é um filme maravilhoso, especialmente nos tempos atuais dominados pelo terrível politicamente correto.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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