“Dovlatov” é visualmente impactante, mas carece de alma

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Dovlatov (2018)

Sergei Dovlatov, escritor russo de ascendência armênio-judaica, recusava-se a fechar os olhos para a situação terrível do país e aceitar as demandas dos editores por panfletos heroicos e otimistas, logo, encontrava tremenda dificuldade em ser publicado. Divorciado e com uma filha, ele sobrevivia escrevendo reportagens para um jornal de fábrica. Como grande parte daqueles que se destacam em sua área, perseguido também pela inveja dos colegas, ele só recebeu justo reconhecimento após a morte, quando já não representava concorrência.

“Dovlatov”, dirigido por Aleksey German Jr., não trilha o caminho convencional de uma cinebiografia, o roteiro decide focar em seis dias da vida do escritor, vivido por Milan Maric, no começo dos anos 70, exatamente em seu período existencialmente mais sombrio. E a opção frequente pelos planos longos e por um dominante tom sóbrio realça a angústia sentida pelo protagonista, inserido em uma realidade árida para qualquer pessoa minimamente questionadora. A frustração compartilhada com artistas de diferentes vertentes é emoldurada na fotografia de Lukasz Zal por uma névoa onírica, o roteiro flerta timidamente com o humor, mas o ritmo é desnecessariamente lento, exaurindo o espectador e prejudicando consideravelmente a experiência.

Com um timing perfeito para a estreia, vale pela recriação imaginativa de um período histórico em que a arte verdadeiramente enfrentava a opressão, bastante diferente, por exemplo, do Brasil de hoje, em que vemos roqueiros conservadores e ídolos de outrora aplaudindo ditaduras. Dovlatov sabia que somente seria publicado se abaixasse a cabeça para a panelinha da União dos Escritores, por conseguinte, avalizando o código moral torto da ditadura soviética, mas ele corajosamente preferiu o caminho da resistência.

Cotação: ggggjjjk - "Dovlatov" é visualmente impactante, mas carece de alma

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Octavio Caruso
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