O terror nacional “O Nó do Diabo” merece ser prestigiado por sua coragem

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O Nó do Diabo (2017)

Antologias já são arriscadas normalmente, quase nunca os segmentos conseguem manter o mesmo nível de qualidade, mas “O Nó do Diabo” é ainda mais prejudicado por ter sido pensado inicialmente como série de TV, com quatro diretores e sete roteiristas. O produto final acabou ficando longo demais, irregular, arrastado. Para ser justo com a obra, decidi analisar brevemente cada capítulo isoladamente.

1 (2018), dirigido por Ramon Porto Mota – No rádio (narrador dominante) escutamos uma caricatura da extrema direita celebrando o impeachment de Dilma, enquanto que, na imagem, um capataz grosseirão aponta à distância uma escopeta para moradores pobres da favela. Como ele afirma posteriormente: “Esse povo se multiplica do dia para a noite”. Em dado momento, ele é mostrado desrespeitando a fé dos mais humildes. Utilizar as convenções do terror para estabelecer crítica política é louvável, mas não há mérito em fazer isto da forma mais preguiçosa. O conceito é tonto em seu maniqueísmo, como na cena em que ele berra e os ameaça à distância. Logo depois, encontra a casa do patrão racista tomada por adolescentes, com a câmera enfatizando que são lésbicas e gays. Ele sai matando todo mundo. Mais raso, impossível! Se pelo menos houvesse algo de especialmente criativo na forma com que ele executa suas vítimas, elemento que salvava até mesmo o giallo mais fraco, mas, não, tudo é feito sem tensão e com extrema previsibilidade.

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2 (1987), dirigido por Gabriel Martins – O capítulo mais competente, com ótimo senso de ritmo. A narrativa vai sendo desenvolvida com toques certeiros de horror, quase sempre insinuado, evidenciando que o casal de operários negros verdadeiramente entrou em uma gaiola ao procurar emprego na fazenda administrada pelo homem branco. A ideia segue essencialmente maniqueísta, mas a execução (o que importa na análise) desta feita é impecável. Como ponto negativo, os diálogos poderiam ter sido refinados, buscando maior naturalidade, especialmente considerando a simplicidade intelectual dos protagonistas.

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3 (1921), dirigido por Ian Abé – A trama das duas irmãs que vivem num regime de escravidão no interior é pouco inspirada. Uma delas é rebelde, a outra é mansa, mas as personalidades não são aprofundadas. A organização das histórias na antologia trabalha contra a experiência sensorial, após o denso capítulo anterior, esta tímida incursão no terror gore quase passa despercebida. Não é tecnicamente ruim, apesar das atuações estarem num nível abaixo das duas primeiras, mas não apresenta sequer uma imagem que fique na memória após a sessão.

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4 (1871), dirigido por Jhesus Tribuzi – Acompanhando o escravo que fugiu da fazenda e da tortura dos homens brancos após perder a esposa e o filho, este quarto capítulo peca pela repetição de algumas soluções estéticas e por não conseguir estabelecer o mínimo necessário de tensão. Se fosse o primeiro na antologia, contemplativo, sereno, até poderia se beneficiar da expectativa do público, mas, sendo o penúltimo, já pega o espectador irritado e entediado checando a hora no relógio.

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5 (1818), dirigido por Ramon Porto Mota – Superior aos dois capítulos anteriores, esta homenagem indireta aos zumbis de George Romero inicia com uma sequência que parece saída do “Planeta dos Macacos” original, com quilombolas fugindo pela mata, perseguidos pelos capatazes, inclusive com a trilha sonora remetendo diretamente ao trabalho de Jerry Goldsmith no filme citado. O tom das atuações é um pouco over, contrastando negativamente com os capítulos anteriores, prejudicando o senso de unidade da antologia. O maior problema é que, quando a trama engata e traz algo realmente instigante, corta para os créditos finais.

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Realizado pela produtora “Vermelho Profundo”, de Campina Grande, no interior da Paraíba, o filme merece aplausos pela utilização do terror como veículo para compor uma crítica abrangente, que abraça cinco períodos históricos diferentes, sobre as raízes do racismo estúpido que ainda impera no país, tendo como elo narrativo a figura de um cruel fazendeiro branco, “Seu Vieira” (Fernando Teixeira). É uma proposta corajosa e que merece ser prestigiada, apesar de intensamente problemática em sua execução.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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