Crítica das três temporadas da série “Merlí” (2015-2018)

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Merlí (2015-2018)

A série da TV pública catalã, criada por Héctor Lozano, já merece lugar no panteão dos conceitos mais inovadores dos últimos anos. Sem forçar a barra, os roteiros encontram maneiras honestas e eficientes de tratar dos mais variados temas, inclusive os mais espinhosos, amparados na entrega carismática de um elenco impecável, capitaneado pelo excelente Francesc Orella, que vive Merlí Bergeron, um professor desempregado porque encontra dificuldade em se adaptar à sistemas restritivos de ensino, rejeitando a pedagogia autoritária.

Eu vi as três temporadas duas vezes para a preparação deste texto, fiquei completamente apaixonado por esta maravilhosa indicação de minhas leitoras. Como alguém que sempre estudou filosofia de maneira informal, aplaudo a abordagem fiel e (escolha ousada) profunda, dos ensinamentos dos filósofos e escolas filosóficas que são a base de cada capítulo. Se você gosta de filosofia, receberá um abraço caloroso ao final da série. Se não havia se interessado na matéria até hoje, provavelmente terminará com a certeza de que não há nada mais fascinante no sistema educacional.

Na primeira temporada, o motor principal da trama é o conflito entre Merlí e o colega professor Eugeni (Pere Ponce), profissional que inveja profundamente a facilidade do mestre de filosofia em conquistar o carinho de seus alunos. Ele é o típico inseguro que utiliza seu trabalho como muleta para ser valorizado intelectualmente na sociedade, alguém que busca o respeito pela imposição da força, equação que sempre resulta em desprezo na sala de aula. Eugeni não se importa em ser querido pelos mais jovens, aliás, ele só entrou na área para satisfazer sua vaidade. Merlí, por outro lado, nutre genuína paixão por aquilo que ensina, atitude que desperta estranheza nos outros colegas, os estudos fizeram ele alimentar segurança suficiente para jamais ser limitado ideologicamente. Ao estabelecer uma relação de total honestidade com sua arte, ele criou o próprio método, visando transformar a matéria da filosofia, tida equivocadamente no ambiente escolar como algo menos relevante, em uma fonte de inspiração excitante para mentes em formação. Os alunos enxergam as possibilidades libertárias e dedicam atenção dobrada às suas palavras.

Merlí, ao contrário de Kant, que cobrava a moralidade plena, adota um modelo de moralidade conveniente, despido da problemática culpa judaico-cristã. Ele vive a vida plenamente, ama as mulheres (todas as que despertam seu interesse), valoriza os prazeres gastronômicos, em suma, aproveita sabiamente o curto espaço de tempo que todos nós temos nesta jornada. O filho adolescente, Bruno (David Solans), faz aulas de balé, mas, apesar do apoio terno do pai, alguém desprovido de qualquer preconceito, teme revelar sua homossexualidade. Ele ama em segredo o colega Pol (Carlos Cuevas), o típico galã da sala, popular e sorridente, mas que passa perrengue fora do ambiente de estudos. Nas duas últimas temporadas, o relacionamento desabrocha de uma maneira realmente encantadora, sensível e profundamente humana. A indústria norte-americana e a nossa dramaturgia televisiva usualmente apostam no tema com a delicadeza de um elefante numa loja de cristais, mas esta produção catalã consegue injetar elegância em situações críveis, tornando o processo de amadurecimento do rapaz, ao longo das três temporadas, uma verdadeira aula comportamental para todos com quem convive. Não é apenas uma questão de aceitação sexual, mas a compreensão exata de que viver com medo não é uma opção válida.

Outro ponto que é brilhantemente ressaltado na série é simbolizado na subtrama de Ivan (Pau Poch), jovem traumatizado por bullying que abandona a escola e decide não sair mais de casa. Merlí, apavorado ao descobrir que o diretor havia encaminhado para a missão Eugeni, alguém que vê na situação apenas uma possibilidade para ser mais respeitado por seus superiores, decide aparecer na casa do rapaz na noite anterior, estabelecendo aos poucos uma relação de amizade sincera que, em longo prazo, vai retirar Ivan da “caverna de Platão”. E, claro, ele também vai conquistar o amor da bela mãe (Anna Ycobalzeta) do rapaz, que abdicou da autoestima nos anos em que se dedicou a proteger o filho. Após sua passagem, mãe e filho são modificados, um legado precioso cada vez mais raro neste mundo pateticamente imediatista.

A segunda temporada insere como antagonista a docente Coralina (Pepa López), odiada por alunos e colegas, além de tocar em temas importantes como gravidez na adolescência e a ausência dos pais na infância. A nova “vilã”, como não poderia deixar de ser, rapidamente é desconstruída pelo roteiro, evidenciando que, por trás de seu temperamento insuportável e atitudes questionáveis, existe uma pessoa intensamente frustrada, que utiliza sua função profissional para descontar sua raiva. Os alunos invariavelmente irão aprender que todos os indivíduos que vivem pelo ódio são os mais fragilizados. O caminho da correção é pavimentado pela lucidez.

Alguns criticam o melodrama no desfecho da terceira temporada, mas eu vejo apenas uma opção inteligentemente coerente à filosofia de seu protagonista. A série não tem vergonha de se assumir popular, a trama busca com segurança a catarse emocional, satisfazendo as expectativas de todos que acompanharam a longa jornada. Qualquer outra opção fria, austera, seria coerente ao método do medíocre Eugeni, uma tentativa de receber o aval dos críticos mais pedantes, aqueles que gostam de segregar, dividindo o que é “arte” e o que é lixo. A simplicidade é o real refinamento. As lágrimas são a recompensa, um gesto de gratidão do público para com profissionais tão talentosos.

Seja também um peripatético, levante da cadeira, abandone o conformismo ideológico, questione tudo e todos, busque sempre compreender o diferente, ao invés de alimentar o medo, viva cada dia como se fosse o último. Adote as “merlinadas” na rotina diária, a única salvação para uma nação é o aprimoramento intelectual/cultural de seu povo.

Cotação: stars1 - Crítica das três temporadas da série "Merlí" (2015-2018)

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Octavio Caruso
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