Crítica de “Nasce uma Estrela”, de Bradley Cooper

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Nasce uma Estrela (A Star is Born – 2018)

A jovem cantora Ally (Lady Gaga) ascende ao estrelato enquanto seu parceiro Jackson Maine (Bradley Cooper), um renomado artista de longa carreira, cai no esquecimento por problemas com o álcool. Os momentos opostos acabam por minar o relacionamento amoroso dos dois.

A ideia original de William A. Wellman, na primeira versão protagonizada por Janet Gaynor e Fredric March em 1937, aborda essencialmente algo que jamais perderá relevância, o valor da gratidão e a necessidade de se manter íntegro aos seus ideais. Hollywood revisitou a história duas vezes, cada geração tem sua atualização, a mais respeitada é a dirigida por George Cukor em 1954, protagonizada por Judy Garland, a mais problemática é a egotrip de Barbra Streisand, que lutou para conseguir a participação de Elvis Presley, mas teve que se contentar com Kris Kristofferson, em um projeto que inegavelmente envelheceu mal, apesar de contar com a belíssima canção “Evergreen”.

Agora, quarenta e dois anos depois, o público tem a chance de conhecer a Lady Gaga real, muito mais interessante que a caricatura exótica que aparece frequentemente na mídia, uma atriz extremamente competente em uma obra que respeitosamente reverencia elementos de todas as versões anteriores, substituindo o tom quase onírico dos clássicos por uma pegada visceral, favorecendo a entrega realista do elenco inspirado, com, pela primeira vez, as músicas inseridas de maneira orgânica na trama, servindo para avançar a narrativa, opção acertada e que injeta surpreendente frescor.

A estreia de Bradley Cooper como diretor não poderia ser mais promissora, ele demonstra tremenda segurança, levando em consideração a difícil tarefa de estar também na frente das câmeras, conseguindo extrair uma verdade pungente nos diálogos, transformando cenas aparentemente simples em momentos emocionalmente épicos. Ao priorizar a câmera na mão nas sequências em que o casal deixa a alma fluir através das canções, ele enfatiza a pureza artística enquanto expressão dolorida e necessária, íntima, sem concessões, visão estética que é drasticamente alterada mais tarde, com o auxílio da fotografia de Matthew Libatique, quando a jovem Ally, já totalmente modificada pela indústria, tenta coordenar os vários movimentos da coreografia no palco com seus bailarinos, com a emoção sendo coadjuvante em letras vazias e que não representam nada em sua vida. E, ironia do destino, a caricatura trabalhada por pesquisas de aceitação do público, a voz que defende rimas tolas, antítese da sonhadora que traduzia seu sentimento em versos desafiadores, esta colcha de retalhos será premiada e aplaudida pelos robôs, até que se cansem dela, meses depois, substituindo-a por outro case de sucesso imediatista.

Aliás, esta crítica ao sistema é perfeita nos dias de hoje, vivemos o ápice da pasteurização musical, uma sociedade patética que alimenta shows de televisão que objetivam a criação de “ídolos”, conceito absurdo, já que o verdadeiro artista jamais se rebaixaria a ser humilhado por jurados buscando bons índices de audiência. Da intensa vocalista que se apresentava no bar de Drag Queens no início, pouco sobreviveu aos assessores de imagem. E, vale ressaltar, toque precioso do roteiro escrito por Eric Roth (de “Forrest Gump” e “Munique”) e Will Fetters (de “O Melhor de Mim” e “O Homem de Sorte”), com colaboração do próprio Cooper, o único que verdadeiramente enxerga a jovem em sua matéria original é Jackson, já que no bar e nas grandes casas de shows, como amadora e profissional, ela sempre se escondia atrás de maquiagem, peruca, sobrancelhas postiças e figurinos extravagantes.

Nas vezes em que tentou mostrar seu talento para empresários, sempre inventavam algum obstáculo, como ela mesma diz: “canta bem, mas o nariz é muito grande”. Ela acumulou feridas internas, acabou se tornando insegura, dependente de máscaras sociais. A realidade atual é que o mercado da música é desenhado para a comercialização de figuras sem personalidade, facilmente manipuláveis por marqueteiros, qualquer deslize na afinação pode ser consertado pela máquina, uma artista genuína com algo relevante a dizer não era bem-vinda na engrenagem.

O novo “Nasce uma Estrela” é, analisando friamente sem o fator da nostalgia, bastante superior aos anteriores, um grande filme que trabalha uma mensagem atemporal poderosa e de apelo universal.

Cotação: stars1 - Crítica de "Nasce uma Estrela", de Bradley Cooper

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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