Crítica de “Culpa”, de Gustav Möller (Festival do Rio)

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Culpa (Den Skyldige – 2018)

Ao atender uma chamada de emergência, o ex-policial Asger Holm (Jakob Cedergren) precisa correr contra o tempo para salvar uma mulher sequestrada.

O segredo de um ótimo filme de suspense é a forma que o roteiro encontra para transformar até mesmo a história mais simples em algo que verdadeiramente mantenha o espectador em alerta o tempo todo. Quando o texto defendido pelo protagonista facilita o investimento emocional, como no dinamarquês “Culpa”, capturando a atenção logo nos primeiros cinco minutos, o tabuleiro está armado, qualquer movimento, por pequeno que seja, causa autêntica aflição. Ao ambientar a narrativa em apenas um claustrofóbico ambiente, a central de atendimento de emergência, com a fotografia de Jasper Spanning buscando sempre aproximar ao máximo os rostos, desafiadoramente alicerçado em sequências de chamadas telefônicas, tendo como herói um policial frustrado por estar longe da ação das ruas, o roteiro escrito pelo próprio Möller, em uma promissora estreia em longas, com Emil Nygaard Albertsen, adota corajosamente todas as limitações criativas possíveis no gênero.

Nós, assim como ele, estamos proibidos de abandonar aquele local, acompanhamos suas atitudes conscientes de que ele age por instinto, cansado, já que estava próximo do final de seu turno. Quando recebe a ligação de uma vítima que tenta denunciar um sequestro, você percebe em seu olhar o gradativo resgate dos valores que outrora o levaram à função, a noite longa estava apenas começando, mas ele não estava disposto à ignorar aquela oportunidade de reencontrar finalmente o policial vocacionado no reflexo do espelho. O mérito é todo da atuação minimalista de Jakob Cedergren, que deixa transparecer sutilmente que há uma explicação plausível para seu comportamento arredio, intempestivo. E a forma como as reviravoltas acabam conectando estes elementos demonstra o brilhantismo da obra.

Sem revelar muito, para não estragar a experiência, vale destacar que o leitmotiv da culpa é trabalhado de maneira muito inteligente, instigando ao final da sessão a reflexão sobre vários pontos, como a desumana burocracia no setor de segurança pública e a forma como o sistema se intromete nos conflitos familiares. Tenso, surpreendente, uma pérola que merece maior reconhecimento.

Cotação: stars1 - Crítica de "Culpa", de Gustav Möller (Festival do Rio)

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Octavio Caruso
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