Crítica de “Feliz Como Lázaro”, de Alice Rohrwacher

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Feliz Como Lázaro (Lazzaro Felice – 2018)

Nesta leitura livre da história bíblica, Lazzaro (Adriano Tardiolo) é um garoto pobre e pouco inteligente, mas extremamente bondoso. Ele é explorado pelos familiares, fazendo trabalhos forçados diariamente, além de colaborar com a marquesa, proprietária das terras onde vivem. 

É cada vez mais raro encontrar algo genuinamente surpreendente no cinema, até mesmo nos projetos independentes você consegue enxergar uma fórmula sendo executada. A roteirista/diretora italiana Alice Rohrwacher nada lindamente contra esta corrente. Eu já havia me encantado com “Corpo Celeste”, de 2011, mas ela alcança em “Lazzaro Felice” o seu momento mais inspirado até o momento, sendo filmado em uma KODAK Super 16mm, o que garante à fotografia um granulado que reforça o lirismo poético de sua fábula cheia de simbolismo. Por baixo desta camada interpretativa mais perceptível, o roteiro toca em temas complexos, expondo comportamentos socialmente cruéis, utilizando como ponta de lança a figura do camponês Lázaro, interpretado por Adriano Tardiolo, um jovem sem experiência cênica, elemento conscientemente orquestrado como forma de intensificar a pureza cristalina de sua entrega emocional.

Aos olhos da marquesa, vivida por Nicoletta Braschi (de “A Vida é Bela”), ocorre em sua fazenda um ciclo desesperançado, a liberdade é pura ilusão, ela explora os trabalhadores, que, por sua vez, exploram o pobre coitado do protagonista, que é tratado como animal de carga, rejeitado até mesmo quando fica doente e precisa de uma simples cama para descansar, incapaz de se negar a qualquer ordem, mantendo sempre no rosto uma expressão suave e frágil, como se fosse intocado pela maldade do mundo. E, de fato, o cenário em que ele está inserido se assemelha a um mundo antigo, serenatas ainda são entoadas por rapazes apaixonados, os moradores da comunidade são tolhidos pelo medo, isolados geográfica e culturalmente, desconhecem outra realidade. A lâmpada elétrica na casa humilde é o único sinal de que não estamos testemunhando o cotidiano de uma época perdida no tempo, o objeto causa estranhamento pelo contraste.

O ensinamento da marquesa para as crianças em uma das cenas evidencia o leitmotiv, “de que adianta conhecimento, se não teme a Deus?” Ao manter pelo medo o povo na miséria e na ignorância, ela consegue prosperar, ela consegue ser divina. No terceiro ato este conceito será desconstruído brilhantemente quando a família dela é reapresentada em outra realidade. Tancredi, vivido por Luca Chikovani, filho adolescente mimado da marquesa, visualmente choca por seu figurino, parece um alienígena naquele fim de mundo. Ele reconhece na mãe as atitudes vergonhosas, apesar de apreciar o luxo, começa também a entender que há mais na vida, ele fica curioso com a forma pacífica com que Lázaro se adapta ao sofrimento diário, mesmo sendo tratado com desprezo por todos, o silencioso enigma acredita nos seres humanos e segue em frente sem pensar mal de ninguém, praticamente um santo. E, sem revelar muito, vale dizer que a trama é conduzida na direção de um milagre, evento de realismo mágico que eleva tremendamente a qualidade da obra, que muda radicalmente de tom, de uma idílica alegoria religiosa para uma sátira social urbana.

Há uma sequência poderosa em sua metáfora que sintetiza a beleza do filme. O grupo de personagens marginalizados adentra uma igreja, atitude que incomoda os religiosos que repetiam o ritual tradicional, envolvendo uma música tocada ao piano. Os escravos inseguros que utilizam a fé como muleta conseguem rapidamente expulsar aquelas pessoas do ambiente que para eles é sagrado. A música então abandona literalmente o órgão da igreja e acompanha os pobres pelas ruas, buscando a pureza que os dogmas destruíram ao longo das décadas.

“Feliz Como Lázaro” é simplesmente um dos melhores filmes dos últimos anos.

Cotação: stars1 - Crítica de "Feliz Como Lázaro", de Alice Rohrwacher

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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