Pérolas do cinema mundial que você PRECISA conhecer!

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Se você valoriza o garimpo cultural, buscando conhecer o cinema que é realizado no mundo todo, já merece aplausos de pé. A maioria se satisfaz com o raso, tocando os pés no fundo, com medo de tentar dar braçadas na piscina olímpica. Eu selecionei alguns títulos fundamentais, em vários gêneros, para facilitar a sua jornada.

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A Bruxa Inocente (Osorezan no Onna – 1965)

Analisado hoje, impressiona como seu amargo discurso sobre repressão sexual alicerçada nas crenças religiosas infelizmente segue relevante, incrivelmente atual. A antinaturalidade forja o conceito do pecado, revestido pelo manto subjetivo da moralidade, subjugando as mentes fracas ao lucrativo controle comportamental. A mãe, ao final, abandonada por tudo e todos, refaz seu caminho sem respostas. Quando a lucidez é negada, não há redenção.

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Biquinis de Saint-Tropez (Le Gendarme de Saint-Tropez – 1964)

O filme tem sequências inesquecíveis, como a frenética transição do preto e branco para o colorido no início, um conturbado passeio de carro conduzido por uma freira e a odisseia dos policiais para prender um grupo de nudistas na praia. Após várias investidas desastrosas, prejudicados por um vigia sentado no galho de uma árvore, os oficiais recebem uma aula embasbacante de Cruchot, que traça a estratégia mais estúpida, algo que poderia muito bem ter saído da mente do Inspetor Clouseau, de Peter Sellers: Treinar os homens sem uniformes, para que se aproximem pelados do local. Sem levantar suspeitas, eles lutam contra o tempo enquanto vestem seus trajes, abordam os meliantes nudistas e, num toque genial do roteiro, pedem seus documentos.

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A Vontade de Um General (Uomini Contro – 1970)

Francesco Rosi quase nunca é citado em listas de grandes diretores, porém seu conjunto de obra é espetacular, tendo influenciado nomes como Oliver Stone, Costa-Gavras e Gillo Pontecorvo, além de ser citado com muita admiração por Francis Ford Coppola e Martin Scorsese. Escolhendo adaptar o livro “Un anno sull’altipiano”, de Emilio Lussu, o diretor une o contundente discurso do autor, denunciando a insanidade da guerra, com uma análise pessoal sobre as relações de poder em grupos masculinos, corajosamente afrontando a clareza política e questionando o intervencionismo. A trama aborda o desespero de soldados desmoralizados, guiados por um general (vivido por Alain Cuny) disposto a sacrificar seus homens até mesmo em situações desnecessárias, por simples capricho egocêntrico. O motim é questão de tempo, quando os pregos que mantém funcionando a engrenagem monstruosa e estúpida da guerra, acabam tendo a consciência de que a morte é uma condição mais digna do que aquela realidade sub-humana de existência.

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Tempo de Massacre (Le Colt Cantarono la Morte e Fu… Tempo di Massacro – 1966)

O diretor italiano Lucio Fulci é reconhecido mundialmente pelo seu trabalho com o terror, mas ele fez alguns Westerns, sendo “Tempo de Massacre” seu primeiro e melhor trabalho no gênero. Franco Nero alia-se ao uruguaio George Hilton em uma das melhores sequências de ação já captadas no “Spaghetti Western”, o que é apenas uma das qualidades desta obra. A excelente trilha sonora (de Coriolano Gori, com música-tema cantada em inglês, como de costume, por Sergio Endrigo) e a violenta cena do chicoteamento sofrido pelo herói, não somente foram poupadas pela cruel ação do tempo, como conseguem manter sua eficiência intacta. O alívio cômico na figura do esperto coveiro (vivido pelo chinês Tchang Yu), que cobra até pela saliva gasta em sua informação, induzirá o espectador ao riso com a mesma habilidade. Inspirado pelo faroeste psicológico de Raoul Walsh: “Sua Única Saída” (Pursued – 1947), o filme foi um divisor de águas para o diretor (que atrairia a atenção de produtores) e para seus dois protagonistas.

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A Experiência (Das Experiment – 2001)

Uma equipe de cientistas convoca vinte homens de diferentes origens para uma experiência psicológica em troca de um prêmio em dinheiro. Os participantes são colocados em uma prisão e divididos aleatoriamente em dois grupos: oito deles fazem o papel de guardas e os outros doze, de internos. Os presos devem obedecer às regras impostas pelos colegas que representam figuras de autoridade. No início, a camaradagem reina no ambiente. Mas em pouco tempo, os falsos guardas mudam de comportamento e a violência (mesmo que proibida) preenche as lacunas. Os internos vão se tornando cada vez mais submissos e os guardas cada vez mais agressivos. Um estudo psicológico sobre o comportamento humano sem precedentes e uma obra que dificilmente irá sair de sua mente.

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A Navalha na Carne (1969)

Com essa pérola do nosso cinema, o diretor Braz Chediak conseguiu estabelecer um clima opressivo praticamente insuportável, primando por planos fechados e longos planos-sequência, com uma sábia utilização do silêncio, que vai além dos quase trinta minutos iniciais só com sons diegéticos. O texto corrosivo de Plínio Marcos, defendido de forma naturalista pelo trio: Jece Valadão/Glauce Rocha/Emiliano Queiroz, vai preenchendo e consumindo o claustrofóbico ambiente, o quarto fétido e desorganizado que serve como microcosmo de uma sociedade hipócrita. Os conflitos originados por atos de pura mesquinharia ocasionando em agressões gratuitas, como um câncer que lentamente se espalha pelo organismo. O cafetão que sente prazer em humilhar sua prostituta, extravasando com violência, física e psicológica, um desejo homossexual enrustido, elemento sugerido em diversas cenas, apontando com sadismo os sinais de envelhecimento precoce na mulher que vive da aparência. Neste quarto de pensão, o ódio coletivo, que nasce da insatisfação social e do desgaste natural diante dos rituais vazios, conduz os personagens ao limite da resistência.

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A Verdade (La Vérité – 1960)

Dominique roubou o noivo da irmã com a intenção clara de agredir ela, sempre tão ajuizada e meiga, mas o rapaz também agiu errado, ele não se preocupou com os sentimentos da noiva. Após conseguir seu objetivo, ela se desinteressou por ele, voltou para a sua rotina de festas e muita paquera, o rapaz se revoltou, ficou enciumado. É quando o filme entrega uma de suas cenas mais bonitas, de forte simbologia. Ele é maestro, vive da música, da arte, gosta de controlar tudo. Ela, uma força da natureza, desapegada das normas sociais, livre. Abandonada, aquela que gargalhava na cara do conservadorismo, aquela que acreditava ser tão autossuficiente, entra escondida em seu local de trabalho e chora estupefata ao ver ele regendo. A grandeza daquele som, tão diferente de tudo o que ela costumava escutar, ativa algo em seu íntimo que nunca havia sido estimulado. O amor genuíno, sem se importar com competição infantil por atenção, sentimento que não se esvai ao não ser correspondido, já que não depende de aceitação, ele simplesmente existe. Este momento engrandece ainda mais o desfecho brutal da obra, adicionando camadas preciosas, evidenciando o quão frágil é o conceito do julgamento. Os jornalistas que cobriam o caso, antes mesmo das últimas palavras serem ditas, já abandonaram o local, o que importa é a manchete, o que importa é ser o mais rápido a entregar a matéria. O material humano nesta equação é lixo.

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Guerra – Flagelo de Deus (Westfront 1918: Vier von der Infanterie – 1930)

Radicalmente diferente do que ocorre no superestimado “Sem Novidade no Front”, lançado no mesmo ano, que exibia a angústia da Primeira Guerra Mundial com um verniz vistoso, o olho do diretor G.W. Pabst, demonstrando segurança em sua primeira incursão no cinema falado, está direcionado à corajosa desromantização do combate, negando todas as possibilidades de solucionar cenas potencializando a ação como facilitador de qualquer catarse emocional, deixando de explorar qualquer momento que tenha a violência como fator principal na narrativa. Ele recusa as fórmulas dos filmes do gênero, com sua câmera estática captando a destruição sem pretensões estéticas, evitando também o lugar comum que sempre insere a experiência militar como elemento definidor do caráter dos soldados.

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A Vida de Um Tatuado (Irezumi Ichidai – 1965)

Uma das maiores inspirações para o “Kill Bill”, de Tarantino. É o que normalmente se escreve quando se aborda esse filme, que é o meu favorito do diretor. Tremenda injustiça, reduzir essa espetacular obra-prima à posição de influenciadora de um projeto menor, ainda que popular e divertido. Sem revelar muito sobre a trama, para não prejudicar a experiência daqueles que irão conhecê-la na caixa, foi a primeira vez que Seijun Suzuki recebeu um alerta de seus superiores sobre ter ido longe demais em seu estilo, o que, por si só, já seria motivo suficiente pra despertar o seu interesse e fazer com que redobre a atenção especialmente em seu magnífico desfecho. A história incita investimento emocional, algo que não é usual na filmografia dele, por isso considero um excelente ponto de partida. O segundo ato tem um ritmo inteligentemente mais lento, exatamente para estabelecer com cuidado a relação entre os irmãos, especialmente suas motivações antagônicas, o que favorece a catarse psicodélica que ocorre no terceiro ato. Sobra espaço no roteiro até mesmo para uma subtrama romântica. “A Vida de Um Tatuado” mostra Suzuki dominando o equilíbrio perfeito entre suas invencionices autorais e a necessidade de entregar um produto de valor comercial.

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Braço de Diamante (Brilliantovaya Ruka – 1968)

A ideia é um misto de sátira dos filmes de James Bond, que gozavam de extrema popularidade na época, com uma debochada visão sobre o modo de vida dos soviéticos, mas o que verdadeiramente se destaca é a forma como o roteiro libertário subverte as convenções cinematográficas desde os créditos iniciais, que prometem prólogo, divisão em partes e epílogo, uma pretensão épica que já é quebrada logo na primeira sequência. Não há prólogo, não há epílogo e a segunda parte é anunciada após um intervalo poucos minutos antes do fim. É compreensível a fama da obra em alguns países, apesar de ser desconhecida no Brasil, não é uma comédia simplória, abraça variadas vertentes, do pastelão ao humor mais refinado usualmente encontrado nas produções inglesas. A dupla Yuriy Nikulin (que era palhaço de circo) e Andrey Mironov esbanja carisma, especialmente no agitado e superior terceiro ato.

Link para a postagem original da minha lista (em inglês) no site norte-americano “Taste of Cinema”:

http://www.tasteofcinema.com/2018/10-masterpieces-of-world-cinema-you-should-not-miss-part-4/

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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