2 pérolas obscuras do terror: “El Caminante” e “Leptirica”

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El Caminante (1979)

Leonardo (Naschy), o diabo em forma humana, é um andarilho que preza a busca pelo prazer sem escrúpulos, sem código moral, embasado pela consciência de que a humanidade é uma raça corrompida, sem redenção. Ele cruza o caminho do jovem Tomás (David Rocha), um servo maltratado por seu antigo mestre, que logo se torna seu aprendiz em uma jornada para provar que os seres humanos são fracos e destinados ao inferno.

Não sei explicar a razão, mas sempre considerei “El Caminante” esteticamente similar ao “Finis Hominis”, porém, com proposta radicalmente oposta, lançado por José Mojica Marins oito anos antes. O diretor Paul Naschy, pseudônimo de Jacinto Molina, o lobisomem espanhol Waldemar Daninsky de tantas fitas B divertidíssimas, considerava este o seu melhor trabalho, apesar de continuar sendo pouco comentado até mesmo entre seus admiradores. É, sem dúvida, o seu momento mais sofisticado, com uma fotografia inspirada de Alejandro Ulloa, destacando a cor vermelha sempre que o protagonista abraça apertado o maquiavelismo.

O roteiro ambientado no período medieval, escrito por Naschy e Eduarda Targioni, tem toques pasolinianos de humor negro e uma boa dose de crítica social e religiosa, como na sequência forte em que, crucificado à frente de uma imagem de Cristo, emoldurado pelo entardecer, o seu personagem entrega um monólogo pungente salientando a suprema tolice de um messias que se sacrifica por uma humanidade tão cruel, capaz de atos tão terríveis como o extermínio de judeus na Segunda Guerra Mundial.

O elemento de terror mais óbvio está na forma como o filme estabelece desde os primeiros minutos um clima constante de desamparo, refletindo a maneira brutalmente desesperançada com que seu diretor enxerga a experiência da vida, algo facilmente perceptível em toda a sua carreira.

Cotação: 3 5 stars - 2 pérolas obscuras do terror: "El Caminante" e "Leptirica"

Leptirica (1973)

Strahinja (Petar Božović) é um jovem que luta pela mão da garota que ama, Radojka (belíssima Mirjana Nikolić), mas enfrenta a superproteção do pai dela, o ciumento e enigmático Živan (Slobodan Perović). Enquanto isto, no pobre vilarejo, ataques noturnos frequentes de um ser sobrenatural apavoram um pequeno grupo de trabalhadores.

“Leptirica” (tradução: A Mariposa), este telefilme iugoslavo dirigido por Đorđe Kadijević, pioneiro sérvio no gênero, baseado em um clássico conto vampiresco de Milovan Glišić (publicado dezessete anos antes do “Drácula” de Bram Stoker), vendido pela imprensa à época como o projeto que causou a morte de um telespectador por puro medo, segue praticamente desconhecido no Brasil, tremenda injustiça que um rápido garimpo na internet hoje em dia pode desfazer.

A necessária atmosfera onírica/folclórica é estabelecida com facilidade, mas o ritmo é bastante irregular nos primeiros trinta minutos. Algumas tentativas de alívio cômico são desajeitadas, outras conseguem ser muito eficientes, como a sequência em que os trabalhadores do vilarejo procuram informações sobre o mal que assola a região com uma anciã que possui sérios problemas auditivos. Vale destacar o design de som que insere arrepiantes gritos de corujas para intensificar sensorialmente a ameaça.

Cotação: 3 stars - 2 pérolas obscuras do terror: "El Caminante" e "Leptirica"

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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