Crítica de “A Favorita”, de Yorgos Lanthimos

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A Favorita (The Favourite – 2018)

Na Inglaterra do século 18, Sarah Churchill (Rachel Weisz), a Duquesa de Marlborough, exerce sua influência na corte como confidente, conselheira e amante secreta da Rainha Ana (Olivia Colman). Seu posto privilegiado, no entanto, é ameaçado pela chegada da prima Abigail (Emma Stone), nova criada que logo se torna a queridinha da majestade e agarra com unhas e dentes essa oportunidade única.

Antes de analisar a obra, levando em consideração a recepção dela pelo grande público, acho válido destacar nestes três primeiros parágrafos um fenômeno que é bem brasileiro, povo que, em sua grande parte, não valoriza a informação cultural, por exemplo, dificilmente clica em uma postagem sobre algum filme que não conheça, já que não sente prazer algum no ato de aprender, algo que explica o tradicional (e vergonhoso) desprezo da nossa sociedade pela preservação da memória artística.

O rasteiro imediatismo no consumo de entretenimento leva o indivíduo a entrar na sala escura sem sequer ter lido a sinopse, aquela experiência é, para esta pessoa, um passatempo pueril facilmente substituível por um torneio de cuspe à distância, atitude que, por sinal, explica a conduta deselegante usual do público neste ambiente. Se o roteiro a desafia intelectualmente, ou ousa trilhar um caminho narrativo nada convencional, ela toma como insulto pessoal, abandona orgulhosamente o local no meio da projeção. E normalmente estas pessoas não apreciam a leitura do texto crítico, cuja função é exatamente fazer o leitor pensar, sair da zona de conforto, logo, você que está acompanhando estas palavras, felizmente não se enquadra neste caso.

Dito isto, aquele que entrar na sessão de “A Favorita” sem conhecer o estilo de seu diretor, sem ter buscado minimamente se informar sobre a sua proposta, buscando satisfazer uma expectativa emocional que o próprio criou apenas olhando para o cartaz (ou somente o título), provavelmente vai sair incrivelmente irritado, falando mal do filme nas redes sociais, em suma, cometendo uma tremenda injustiça com a obra. É o caso clássico da pessoa que vai na loja pedir agressivamente a troca de sua televisão, dizendo que a imagem não está aparecendo, para, em questão de segundos, ter sua narrativa quebrada pelo tranquilo vendedor que apresenta a ela novas pilhas para o controle remoto. Às vezes o que é tido como um problema em um filme está na percepção preguiçosa/deficiente de seu espectador.

Se você está familiarizado com a visão criativa do diretor grego, responsável por pérolas fora da curva como “Dente Canino”, “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, talvez note que seu novo trabalho é levemente menos sombrio e contundente, tem uma pegada muito mais acessível (não é exatamente um ponto positivo), já que não foi escrito por ele. O roteiro de Deborah Davis e Tony McNamara favorece o talento de seu trio de protagonistas, Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone, inserindo o maior número possível de cenas que as coloquem em conflito.

A divisão espirituosa em capítulos é um deboche elegante com o leitmotiv da exagerada auto-importância vazia (e, por conseguinte, os relacionamentos e prazeres vazios despertados por puro interesse), representada principalmente pela figura da rainha entediada, que poderia facilmente se tornar uma caricatura nas mãos de uma atriz menos competente, mas que é imbuída de humanidade, uma composição brilhante de Colman. O poder absoluto garantido por sua posição não traz felicidade, ela parece enxergar a própria decadência existencial como punição, aliviando a frustração na companhia de seus vários coelhos de estimação.

A opção pela lente olho de peixe na fotografia de Robby Ryan, enfatizando nas imagens distorcidas a pequenez (patética e, principalmente, ridícula) das poucas figuras que habitam estes cenários luxuosos, a absurda coreografia das sequências de dança, o (por vezes) escatológico humor negro e algumas sutis características nos figurinos e adereços revelam o tom farsesco e fantástico da trama, praticamente uma obra-irmã menos discreta do “Barry Lyndon” kubrickiano, abaixo da superfície aparentemente tradicional de um drama de época.

Apesar de uma quebra de ritmo perceptível no terceiro ato, produzindo uma boa dose de gordura extra, “A Favorita” mantém a coerência autoral de Lanthimos, ainda que não se iguale em qualidade aos seus esforços anteriores.

Cotação: 3 5 stars - Crítica de "A Favorita", de Yorgos Lanthimos

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Octavio Caruso
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