Sétima Arte em Cenas – “Assim Caminha a Humanidade”, de George Stevens

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Assim Caminha a Humanidade (Giant – 1956)

Um rancheiro milionário do Texas, Bick Benedict (Rock Hudson), volta para casa de uma viagem com sua nova namorada, a refinada Leslie Lynnton (Elizabeth Taylor). Bick e Leslie se casam, mas ela não se entende muito bem com a irmã de seu novo marido e ao mesmo tempo, ganha a admiração do jovem ambicioso Jett Rink (James Dean). Ao longo dos anos, cresce a rivalidade entre Bick e Jett e a sorte de todos está prestes a mudar.

O grande Howard Hawks defendia que um filme precisava ter, pelo menos, três cenas maravilhosas e nenhuma ruim. “Assim Caminha a Humanidade”, apesar de, no todo, ter problemas compreensíveis de ritmo nos últimos dois atos, devido à longa duração, ultrapassando as três horas, passa com louvor neste teste, já que foi difícil selecionar para este texto apenas quatro sequências que me fazem voltar à obra com frequência.

Antes, uma breve contextualização. O veterano George Stevens vinha de dois sucessos muito queridos pelo público, “Um Lugar ao Sol”(A Place in the Sun – 1951) e “Os Brutos Também Amam” (Shane – 1953), quando finalmente realizou o desejo de comandar a adaptação do corajoso livro homônimo de Edna Ferber, que trazia em seu cerne, além de uma discussão ousada (para sua época) sobre intolerância racial, o protagonismo de uma mulher (inicialmente seria Audrey Hepburn, mas o diretor acabou se decidindo por Elizabeth Taylor) que se recusava a se submeter ao papel inglório reservado a ela por uma sociedade intensamente machista.

O público usualmente se lembra do filme por ser o último trabalho de James Dean, que faleceu durante a produção, mas é a personagem Leslie (Taylor) a real força por trás das ações na trama. É curioso hoje que a pauta feminista esteja sendo politizada pela esquerda norte-americana na indústria, como se fosse algo novo ou audacioso, quando vários cineastas, como Michael Curtiz (“Tu és Mulher”, de 1933, e “Alma em Suplício”, de 1945), Howard Hawks (“Jejum de Amor, de 1940), William Wellman (“Caravana de Mulheres”, de 1951), ou Stevens, em 1956, já batiam muito mais forte nesta tecla décadas atrás. Dito isto, resgato as cenas que considero as mais interessantes, plenas em simbologia.

Leslie é uma jovem acostumada à boa vida, logo, quando enfrenta pela primeira vez os hábitos alimentares selvagens dos texanos, ela desmaia. No dia seguinte, sem qualquer estímulo externo, ela muda completamente, evidenciando o brio que subjuga seus medos. Acordando mais cedo que a durona irmã de seu marido, ela toma as rédeas da casa e, por conseguinte, de seu destino. Mais tarde, ela se revolta por ser impedida de escutar a conversa política do marido e seus amigos, exibindo sua cultura superior de forma debochada, enquanto humilha aquelas que se rebaixavam: “Arrumem o tear, meninas. Logo me juntarei ao harém”.

A irmã do marido, Luz (Mercedes McCambridge), uma figura claramente perturbada pela frustração existencial, tenta retomar o controle domando o cavalo favorito de Leslie, símbolo de suas raízes privilegiadas. A câmera foca a todo momento na espora ferindo o cavalo, com a montagem alternando a imagem com a primeira interação entre a jovem e o rebelde Jett (Dean). Quando ela deixa o rapaz desconcertado após receber um elogio à sua beleza, a montagem insere a maldade da frustrada em campo aberto esporeando o cavalo, que, logo depois, reaparece retornando à casa machucado. A mulher se machucou seriamente, acaba falecendo, vítima alegoricamente de sua própria insegurança.

No corpo sem vida, o detalhe que se destaca é a espora, já que ela escolheu viver pela dor. E, o elemento mais bonito, conclusão perfeita, Leslie não apenas respeita o momento do marido, silenciando o absurdo que Luz havia cometido, como também demonstra preocupação com o bebê doente de uma das empregadas, consideradas inferiores pela falecida. O cavalo, depois ela descobre, foi sacrificado pelo marido (muito parecido comportamentalmente com a irmã), já o bebê, graças ao carinho sincero daquela que agiu com superioridade, resistindo bravamente aos instintos mais baixos, segue vivo. O amor sempre vence.

Outro momento impactante da obra, desta feita, protagonizado por Jett, a representação da vitória moral de seu personagem, escalando o moinho de vento, símbolo do instinto cênico de Dean, que improvisou a radical mudança no roteiro, em que ele somente caminharia até a cerca. A trilha de Dimitri Tiomkin enfatiza o aspecto épico e heroico da simples atitude do rapaz, ao recusar o pagamento dobrado em troca do pedaço de terra que Luz, única amiga dele no local, havia deixado em testamento para ele.

Entre o dinheiro fácil, esmola daqueles que o desprezavam, e a possibilidade de vencer na vida por seus próprios méritos, ele não pensou duas vezes.

Cotação: Azhar movie Star Ratings 2 - Sétima Arte em Cenas - "Assim Caminha a Humanidade", de George Stevens

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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