Crítica do documentário “1964: O Brasil Entre Armas e Livros”, de Filipe Valerim e Lucas Ferrugem

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1964: O Brasil Entre Armas e Livros (2019)

Ditadura, Regime Militar ou Revolução? A Brasil Paralelo está produzindo um documentário inédito para resgatar a verdade sobre o período mais deturpado da nossa história.

É uma estupidez sem tamanho aplaudir qualquer ditadura, inclusive todas aquelas que a esquerda brasileira apoiou nos treze anos em que esteve no poder, mas também é de uma desonestidade intelectual atroz simplificar o que ocorreu no Brasil em 1964, reduzindo tudo ao confronto maniqueísta entre militares malvados torturadores e revolucionários comunistas que lutavam pela democracia.

Há vários, dentre estes últimos, que em retrospecto lúcido afirmam que objetivavam apenas estabelecer a utópica ditadura do proletariado, com heróis como Che Guevara e Marighella, terroristas assassinos que idolatravam Josef Stalin, um monstro tão detestável quanto Hitler.

Ao estudar o tema, absorvendo informações provenientes de vários pontos de vista discordantes, por exemplo, debruçando-se sobre os volumosos tomos de “Os Militares no Poder”, do jornalista Carlos Castello Branco, e também sobre livros de claro viés de direita, ao invés de aceitar apenas as manchetes sensacionalistas enviadas pelas correntes de WhatsApp, infelizmente, base educacional de muitos jovens e adultos alfabetizados, você começa a construir uma narrativa complexa, que, sim, merece ser discutida em livros, documentários e nas salas de aula.

O trabalho da equipe do “Brasil Paralelo”, financiado apenas pelos assinantes, agregando depoimentos de diversos nomes respeitados, historiadores, jornalistas, pesquisadores, filósofos, longe de ser o demonizado panfleto ideológico pró-ditadura que a esquerda brasileira está apontando, presta um serviço de qualidade ao necessário debate. No frigir dos ovos, o único diferencial dele é questionar algumas seções, agregar camadas à narrativa hegemônica, não há nada de errado nisto, a base de qualquer pensamento filosófico é evitar as verdades absolutas.

Estruturalmente, não há interesse nos diretores em reinventar a roda, o documentário é correto, ágil, não abusa de firulas melodramáticas tendenciosas, com uma trilha sonora que eficientemente dialoga com o que está sendo narrado. É louvável que praticamente toda a primeira hora seja dedicada ao contexto mundial da Guerra Fria, sem pressa, embasando todos os pontos com registros visuais da época, evidenciando que o interesse dos realizadores não é rasteiro, há valor educacional espertamente transmitido com fluidez, dinamismo, para capturar também a atenção do público jovem.

Da mesma forma que o roteiro defende que a tomada de poder dos militares em 1964 foi determinante para que o Brasil não se tornasse uma Cuba, ele também dedica os últimos quarenta minutos ao “golpe dentro do golpe” ocorrido em 1968, a injustificável censura artística, em suma, o aspecto negativo, os absurdos odiosos deste momento nacional, inclusive falando diversas vezes contra os militares.

A pergunta que fica após a tola polêmica armada antes mesmo da obra ser vista, com destaque para o recente boicote à rede “Cinemark”, é: O que os protestantes temem? Se a verdade deles é sólida, não há documentário algum que possa abalar as convicções dos espectadores. Tentar calar a voz contrária, além de ser uma atitude incoerente vinda de quem esperneia contra a censura, soa como desespero, puro medo.

Cotação: 3 5 stars - Crítica do documentário "1964: O Brasil Entre Armas e Livros", de Filipe Valerim e Lucas Ferrugem

  • O documentário está disponível gratuitamente no canal do “Brasil Paralelo” no Youtube.

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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