“Estrada Sem Lei”, de John Lee Hancock

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Estrada Sem Lei (The Highwaymen – 2019)

Frank Hamer (Kevin Costner) e Maney Gault (Woody Harrelson) são dois policiais aposentados quando Bonnie (Emily Brobst) e Clyde (Edward Bossert) começam sua onda de assaltos e assassinatos. Porém, quando o FBI se mostra incapaz de capturar os bandidos, eles são recrutados pela governadora (Kathy Bates) como investigadores especiais para resolver o caso.

O roteirista John Fusco acerta ao injetar na história a especialidade de sua assinatura, perceptível em filmes como “Mar de Fogo”, “Spirit, o Corcel Indomável”, a pérola “A Encruzilhada”, além de “Os Jovens Pistoleiros”, que fez a garotada da década de oitenta se encantar pelo gênero do faroeste, uma leveza quase fabulesca, porém inteligentemente ardilosa, que agrega camadas menos óbvias de interpretação e favorece as metáforas.

Na superfície, acompanhamos os investigadores envelhecidos enfrentando não apenas as suas limitações físicas, como também a atualização natural das ferramentas tecnológicas de combate ao crime. Eles são tão vulneráveis quanto os jovens que estão perseguindo, na lei e fora dela, separados apenas por suas escolhas. A identidade visual facilita a imersão necessária, vale destacar a ótima direção de arte, uma reconstituição primorosa do período da Grande Depressão nos Estados Unidos da década de 1930.

Um olhar mais atento evidencia, já na primeira sequência, um detalhe que estabelece esta ligação alegórica entre caçados e caçadores, ao invés da beleza estonteante de Faye Dunaway, somos apresentados à uma Bonnie Parker manca, caminhando com dificuldade no gramado. Ao introduzir este fato pouco conhecido, o roteiro insinua a subversão da narrativa histórica mitificada, criticando duramente também a postura baixa e sensacionalista da imprensa da época, que será o maior mérito da produção.

Os agentes da lei não são assassinos com distintivos, não há tons de cinza entre o que é certo e errado, a entrega contida de Kevin Costner enfatiza o seu conturbado conflito psicológico na missão, somente mentalidades tortas defensoras de valores invertidos conseguem problematizar a atitude dos investigadores, vitimizando os criminosos, exatamente como retratado em uma das cenas mais fortes em simbologia, que ocorre próximo do desfecho, mostrando a histeria coletiva do povo diante do esfacelamento grotesco daquela imagem de superioridade do casal alimentada pelos noticiários. Ao analisarmos o nosso cenário político recente, a espécie de síndrome de Estocolmo compartilhada por grande parte dos brasileiros de viés ideológico de extrema esquerda, constatamos que a sociedade não evoluiu tanto nestes mais de oitenta anos.

Apesar de um inegavelmente arrastado segundo ato, o conceito contrário à romantização glamourizada dos bandidos, refletido principalmente na maneira como Hancock esconde os rostos da dupla durante grande parte da trama, especialmente se comparado com o clássico sessentista de Arthur Penn, executado com coerente sobriedade tonal, compensa qualquer problema em sua estrutura.

Cotação: 3 5 stars - "Estrada Sem Lei", de John Lee Hancock

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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