Crítica de “Shazam!”, de David F. Sandberg

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Shazam! (2019)

Billy Batson (Asher Angel) tem apenas 14 anos de idade, mas recebeu de um antigo mago o dom de se transformar num super-herói adulto chamado Shazam (Zachary Levi). Ao gritar a palavra SHAZAM!, o adolescente se transforma nessa sua poderosa versão adulta para se divertir e testar suas habilidades, mas a mente continua infantil. Contudo, ele precisa aprender a controlar seus poderes para enfrentar o malvado Dr. Thaddeus Sivana (Mark Strong).

Ao passear pelas críticas negativas de alguns colegas sobre esta produção, enxergo claramente um equívoco banal, ignorar a proposta da obra e envenenar a análise com suas expectativas. O filme não existe conceitualmente para satisfazer o espectador, ele é a expressão artística de sua equipe criativa. O crítico não deve defender uma versão própria do que viu, apenas utilizar seus critérios para transmitir aos leitores se aquele esforço coletivo foi eficiente ou não. É compreensível o público geral adotar a experiência passiva, imediatista, despida de bagagem, mas, na crítica cinematográfica esta atitude é sinal de puro amadorismo.

O roteiro de Henry Gayden e Darren Lemke busca inspiração tonal óbvia em “Quero Ser Grande” e “Os Goonies”, opção acertadíssima, compreendida perfeitamente na atuação positivamente ingênua de Zachary Levi, adaptando livremente para a linguagem audiovisual a versão mais recente do personagem nos quadrinhos, escrita por Geoff Johns. É uma comédia deliciosa, poucas vezes vi na sala de cinema pessoas de todas as idades gargalhando alto diversas vezes, do início ao fim, as piadas funcionam porque a direção de David F. Sandberg consegue afinar o elenco no mesmo diapasão, não há quebra de ritmo, com exceção do vilão, vivido por Mark Strong, que serve como “alívio dramático”, equilibrando bem a trama.

Um toque bacana foi escalar John Glover, pai de Lex Luthor na série “Smallville”, para viver o ganancioso pai de Sivana. Esta conexão tem tudo a ver com o leitmotiv de celebração da mitologia dos super-heróis de quadrinhos, iniciada exatamente por Superman, na clássica “Action Comics 01”, lançada em 1938. Ele é o modelo a ser seguido na realidade da obra, uma resposta crítica ao mundo moderno, em que jovens idolatram qualquer subcelebridade tola da internet. Ao voar pela primeira vez, Billy fica eufórico, tenta imitar seu ídolo. Nos quadrinhos, os dois heróis tiveram uma química conturbada, inicialmente o “Capitão Marvel” (como ele era chamado) foi parar nos tribunais em um processo de plágio pelos executivos da DC, motivado pela popularidade crescente de suas revistas, enquanto que o homem de aço sofria uma queda no número de vendas.

Apesar de estar inserido no atual universo cinematográfico da DC, não há ligação direta com eventos ou personagens, só a admiração da garotada por aqueles símbolos, algo que reflete o mundo real, você vê na tela lojas de brinquedos com bonecos do Batman, adolescentes com camisetas com o logotipo do Aquaman, o elemento inspirador que é a essência da nona arte está presente em cada segundo do filme. A jogada de mestre foi partir da alegoria-base do material original, aquelas páginas eram devoradas no período mais sombrio norte-americano por crianças desesperançadas, com pais desempregados, falidos, violentos.

Aquelas histórias simplórias defendiam o valor de se manter íntegro em tempos de crise, proteger os mais fracos, lutar pela justiça, pela ética, em suma, sobreviver de cabeça erguida diante dos piores obstáculos. O pequeno Billy, para honrar os superpoderes que recebe, terá que aprender a ser resiliente, superar os traumas do passado (algo que o difere drasticamente de seu antagonista), e, principalmente, entender que a família é composta por aqueles que te amam e verdadeiramente se preocupam contigo, aqueles que arriscariam a pele para te tirar de uma enrascada. A sua contraparte adulta é a projeção libertária do alívio de todas as suas angústias, agindo metaforicamente da mesma forma que os quadrinhos nas mentes daqueles pequenos leitores de outrora.

E, vale destacar, as crianças que compõem o núcleo de órfãos são incríveis, carismáticas, facilitando ainda mais a imersão emocional. Sem revelar muito, a evolução destes personagens no terceiro ato trabalha de forma muito inteligente a personalidade de cada um, tocando novamente no tema da superação, negando a vitimização social.

O público nerd infelizmente se acostumou com a ideia de “no próximo, o herói vai fazer…”, graças à própria indústria que reduziu seus produtos à partes de uma engrenagem comercialmente atrativa, abusando de desfechos inconclusivos e referências que dialogam com outras aventuras. Outro mérito refrescante nesta obra é que o interesse é puramente contar bem sua história, com fluidez estética e narrativa, com identidade própria. Após tentar emular de maneira desajeitada a fórmula fast food da Marvel, os produtores entenderam que é mais interessante apostar em bons filmes atemporais, do que em um festival de bobagens com prazo de validade curto. As revistinhas mensais e suas aventuras interligadas podem divertir na hora da leitura, mas o que fica para a história são as graphic novels autorais.

Se a pessoa entrar na sala escura sem conhecer o herói, vai se divertir da mesma forma que aquela que está familiarizada com qualquer versão anterior dele. E isto foi possível porque o personagem, criado por Bill Parker e C.C. Beck na editora Fawcett Comics, posteriormente adquirida pela DC, não ficou especialmente marcado na mente do grande público, os fãs dedicados respeitam a elegante contribuição de Alex Ross, tentam esquecer o antropomórfico tigre Tawky Tawny, mas a maioria (com sorte) se lembra vagamente dele naquela fraquíssima série de TV, de 1974.

Não é somente um grande filme de super-herói, “Shazam!” é um grande filme, transcende o subgênero, com mais coração que todos os projetos Marvel e DC reunidos.

Cotação: Azhar movie Star Ratings 2 - Crítica de "Shazam!", de David F. Sandberg

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Octavio Caruso
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