“Forrest Gump – O Contador de Histórias”, de Robert Zemeckis

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Forrest Gump – O Contador de Histórias (Forrest Gump – 1994)

Mesmo com o raciocínio lento, Forrest Gump (Tom Hanks) nunca se sentiu desfavorecido. Graças ao apoio da mãe (Sally Field), ele teve uma vida normal. Seja no campo de futebol como um astro do esporte, lutando no Vietnã ou como capitão de um barco de camarão, Forrest inspira a todos com seu otimismo infantil. Mas a pessoa com quem Forrest mais se preocupa pode ser a mais difícil de salvar: seu amor de infância, a doce, mas perturbada Jenny (Robin Wright).

“A mamãe sempre dizia que a vida é como um caixa de bombons. Você nunca sabe o que vai encontrar.”

Eu tive a oportunidade de ler recentemente a obra original, de Winston Groom, lançada por aqui pela editora Aleph, fiquei surpreso, uma das minhas experiências literárias mais frustrantes, foi realmente desagradável, daí enxerguei ainda mais méritos na adaptação cinematográfica do roteirista Eric Roth, que, buscando clara inspiração também no personagem de Peter Sellers em “Muito Além do Jardim” (adaptação de “O Videota”, de Jerzy Kosinski), conseguiu extrair a essência da história e construir algo realmente inesquecível.

O meu primeiro contato com o filme foi na infância, acompanhei sua estreia pelas revistas de cinema, até que finalmente, após várias semanas aguardando na fila de locação, vi a fita VHS em casa, com meus pais. Na revisão que fiz para preparar este texto, fiquei surpreso com um detalhe que não havia captado nas anteriores, o incrível senso de ritmo, apesar de sua longa duração, ele jamais se arrasta, posicionando cuidadosamente os tijolinhos emocionais para garantir a solidez dramática de sua catarse final.

A ideia com contornos fantásticos envolvendo a jornada do protagonista por fatos importantes de três décadas da história norte-americana, com a computação gráfica inserindo digitalmente sua figura nos registros jornalísticos, algo similar ao que Woody Allen havia feito anos antes em “Zelig”, por si só, não resiste tão bem sem o apelo do ineditismo do truque. Os alívios cômicos, o pequeno Forrest ensinando Elvis o seu estilo de dança, ou ele, mais tarde, dizendo ao presidente Kennedy que precisa ir ao banheiro, ou a paixão de Bubba (Mykelti Williamson) por camarão, tudo muito simpático, mas, inegavelmente raso, nada que outras comédias já não tenham feito melhor.

A tarefa de aproximar o personagem do público e, principalmente, de evitar que esta ligação se dê por piedade, devido às suas limitações causadas pela síndrome de Asperger, fica para a belíssima trilha sonora, composta por Alan Silvestri, uma das mais tocantes da história do cinema, captando com extrema sensibilidade a sua força interna, a inocência que move suas ações, o positivismo ingênuo com que ele encara até mesmo os obstáculos mais brutais.

O toque genial da adaptação, o elemento que tornou ela tão especial até hoje, é o leitmotiv simbolizado pela pena de pássaro, conceito inexistente no livro, a linda metáfora sobre a imprevisibilidade.

“Eu não sei se cada um tem um destino ou se só flutuamos sem rumo, como numa brisa, mas acho que talvez sejam ambas as coisas.”

O filme se inicia com a pena sendo levada ao sabor da brisa, quase tocando no ombro de um engravatado, antes de parar nos tênis sujos de alguém sentado no banco de uma praça. Ele carinhosamente guarda a pena entre as páginas de um livro. Ao final, quando o vento se encarrega de fazer com que ela se afaste, após dançar por alguns segundos no ar, ela toca o espectador, detalhe poético que evidencia que a história nunca termina, a câmera apenas é direcionada para outra pessoa.

Sim, nem todo mundo viveu tantas aventuras incríveis, mas, até mesmo aquele que se considera mais insignificante já acumulou situações que renderiam um fascinante roteiro. Forrest ensina que há beleza em ser comum.

Todos nós, em variados graus, carregamos traumas psicoemocionais, como Jenny, carregamos também um pouco do tenente Dan (Gary Sinise), com sua visão cínica da vida, amargurada, em que não cabem muletas sobrenaturais, mas também temos um pouco da mãe de Forrest, conseguimos ver propósito naquilo que não entendemos, um senso de organização na natureza que a ciência ainda não explica, fé e dúvida, pólos opostos que convergem no momento em que entramos em contato com a inescapável finitude. É inescapável, mas não precisamos sentar e esperar com tranquilidade, não é uma atitude sensata, devemos contra-atacar.

“Corra, Forrest, corra!”

O bonito significado contido na frase acima sintetiza este necessário inconformismo existencial, a alegoria da corrida, a capacidade do indivíduo se recusar a aceitar aquilo que o fere. O pequeno Forrest, com aparelhos nas pernas, sofrendo bullying, percebe oniricamente que só vai se livrar do problema enfrentando-o de frente, ao sinal da menina que ama, ele corre, os aparelhos se quebram, as pernas frágeis agora se mostram ágeis. O tenente Dan, ao perder as pernas na guerra, mergulhou em autocomiseração, quase desistiu de tudo, mas aprendeu com seu amigo a revidar. Até mesmo Jenny, ao entender que o fim estava próximo, decide fazer algo certo, uma ilha idílica no oceano de equívocos em sua vida, garantindo que sua breve passagem deixe um legado tangível que é fruto de um amor sincero.

Viver é difícil para todos nós, cada um sabe a dor de ser, substituíveis e diminutas peças de uma engrenagem misteriosa, com apenas uma única certeza, o fim, logo, marque o ritmo dos dias nesta contagem regressiva com a batida contagiante do sereno otimismo, procurando ser sempre a melhor versão de si mesmo.

Cotação: 4 5 stars - "Forrest Gump - O Contador de Histórias", de Robert Zemeckis

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Octavio Caruso
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