Crítica de “A Vida de Diane”, de Kent Jones

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A Vida de Diane (Diane – 2018)

Diane (Mary Kay Place) é uma viúva na casa dos setenta anos cuja vida é ditada pela necessidade dos outros. Ela passa seus dias levando comida para moradores de rua, visitando amigos no fim de suas vidas e tentando desesperadamente se conectar com seu filho viciado em drogas. Conforme ela vai perdendo essas peças de sua existência, ela se vê obrigada a olhar para si e confrontar sua própria identidade.

Esta promissora estreia do crítico de cinema, roteirista/diretor Kent Jones na ficção, com produção executiva de Martin Scorsese, após o excelente documentário “Hitchcock/Truffaut”, é uma pérola intimista que não pode passar despercebida nas salas de cinema. Escrito especialmente para a veterana atriz Mary Kay Place brilhar, oferecendo mais nuances do que seus papeis televisivos, o projeto se recusa a ser reduzido aos clichês que sua trama insinua, apesar de abordar a relação da protagonista com o filho viciado em drogas e a prima com câncer terminal, jamais se debruça no raso melodrama manipulador.

O silêncio e os gestos contidos de Diane inteligentemente convidam o espectador a tentar decifrar em seus olhos a motivação para suas ações, abnegada e doce, ela parece esconder doses cavalares de culpa, mas o desinteresse da obra em facilitar o percurso sensorial do público encaminha tudo para uma resolução coerentemente fria, talvez o único ponto fraco, um pouco de humor não faria mal. O tom é essencialmente realista, quase documental, com um ritmo contemplativo que pode afastar aqueles anestesiados pelo usual drama hollywoodiano, mas, em alguns momentos, ousa consideravelmente em drásticas mudanças de estilo que deixam clara a inspiração nos mestres franceses da Nouvelle Vague.

O desequilíbrio inegável é compreensível, sempre é válido correr riscos, e, analisando o todo, não prejudica a fluência da narrativa, já que o foco de Jones está mais na criação de clima, do que no conteúdo. A mensagem, poeticamente simbolizada na montagem áspera, que transmite a impossibilidade de se dominar o tempo, evidencia que a vida só encontra sentido no ato de ser compartilhada.

Cotação: 3 5 stars - Crítica de "A Vida de Diane", de Kent Jones

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Octavio Caruso
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