Crítica de “Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

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Bacurau (2019)

Bacurau, um pequeno povoado do sertão brasileiro dá adeus a Dona Carmelita, mulher forte e querida por quase todos, falecida aos 94 anos. Dias depois, começam os sinais de que a tranquilidade de Bacurau estará sob ameaça. Uma sequência de incidentes mergulham o vilarejo numa tensão crescente. No entanto, muitos não contavam com um detalhe: que no passado desse lugar extraordinário estava adormecido um talento especial para a aventura.

O cinema do diretor Kleber Mendonça Filho é pretensioso ao extremo, o que não é demérito na arte, “O Som ao Redor” e “Aquarius” carregam sua forte impressão digital, peso que prejudica em revisão, já que as tramas, sem o fator do ineditismo, perdem verniz, acabam se mostrando arrastadas e muito menos inteligentes do que o seu criador imagina que são, soando mais como veículos imediatistas para servir a um ideário político, obstáculo comum na época do Cinema Novo, movimento que, com raras exceções, produziu panfletos audiovisuais umbilicais, alguns sinceramente insuportáveis. Ele divide a direção desta vez com Juliano Dornelles. Os dois em essência são muito parecidos, basta ver o curta-metragem “Mens Sana in Corpore Sano”, em que Dornelles pega uma ideia simplória e consegue o feito considerável de fazer 22 minutos parecerem 2 horas.

“Bacurau”, em teoria, conta uma história mais rica do que os dois anteriores, as metáforas continuam herméticas, mas são beneficiadas pelas convenções dos gêneros que o roteiro abraça e desajeitadamente utiliza como referência, mas, analisando friamente, o resultado é o mais fraco dos três. A opção pela estrutura desconjuntada, sem qualquer empatia pelo público (outra similaridade com o Cinema Novo), sabota a própria experiência de imersão emocional. Não há senso de unidade de ritmo, tampouco preocupação com o elenco ser afinado no mesmo diapasão, problema intensificado pela grande quantidade de personagens maniqueístas, deixando uma impressão de novela televisiva ruim. Decisão criativa consciente ou não, simplesmente não funciona, a fábula social demora para engrenar, culminando em um frenesi que, sem soltar spoilers, entrega um conflito com vilões e mocinhos bastante estereotipados (ideologicamente simplista em sua alegoria), diálogos pouco inspirados e muitas pontas soltas, deixando um sabor residual amargo.

A crítica ao poder judiciário é espirituosa, mas, no todo, o filme é irregular, de forma menos sutil que os anteriores, prega para convertidos, colocando o cinema como coadjuvante no palanque político claramente de esquerda. A cartilha é seguida à risca, com a mão pesada típica das propagandas eleitorais do PT, batendo nos temas óbvios, a representatividade dos negros, dos LGBT (a personagem vivida por Sonia Braga é lésbica), contra o malvado capitalismo norte-americano, com direito até a um líder da resistência mezzo Lampião, mezzo Che Guevara, com pitadas de Marighella. E, claro, não poderia faltar ao final uma nada sutil homenagem à Marielle e Marisa Letícia. Eu não me surpreenderia se encontrasse, como um easter egg, um “Lula Livre” pichado em algum muro da cidade.

“Bacurau” é visualmente grandioso, mérito da fotografia de Pedro Sotero, elemento que faz a desnecessariamente longa duração ser menos incômoda. O potencial desperdiçado neste faroeste futurista é tremendo, muitos dos melhores filmes já feitos mundialmente defendiam um viés político, não há problema nisto, mas é fundamental que a história seja sólida e, principalmente, que sua execução seja eficiente.

Cotação: 3 stars - Crítica de "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

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