Crítica de “O Escândalo”, de Jay Roach

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O Escândalo (Bombshell – 2019)

As funcionárias da Fox News denunciam a cultura de masculinidade tóxica da empresa de mídia norte-americana, levando à queda do magnata Roger Ailes (John Lithgow).

O projeto peca pelo sensacionalismo e pela visão incrivelmente simplista de um evento real bastante recente, deixando à mostra o desespero para aproveitar mercadologicamente o interesse pelo tema, optando pelo caminho menos sutil, esvaziando as três protagonistas de qualquer traço orgânico de personalidade, caricaturas de pura bondade e livres de contradições, característica narrativa compreensível quando encontrada em filmes infanto-juvenis de super-heróis, mas um sinal claro de viés tendencioso em obras destinadas ao público adulto, e, principalmente, que abordam um caso tão sério.

O diretor Jay Roach é, sendo generoso, mediano, advindo da comédia com a trilogia Austin Powers, comandou bobagens divertidas como “Os Candidatos”, “Entrando Numa Fria” e sua sequência, mas o seu melhor momento foi na competente (ainda que desprovida de alma) cinebiografia “Trumbo – Lista Negra”.

Ele definitivamente está tentando abraçar projetos mais ambiciosos, com agenda política, como no sonolento telefilme recente “Até o Fim”, sobre o presidente Lyndon B. Johnson, o problema é que ele claramente, utilizando uma expressão norte-americana que adoro, “morde mais do que pode mastigar”. A sinopse pode atrair a atenção, mas a execução é digna de projeto estudantil (estética de telefilme dos anos 70), com uma edição pouco inspirada de Jon Poll e tremenda inconsistência tonal na forma desajeitada como utiliza o recurso da quebra da quarta parede, Roach consegue extrair a vida das boas ideias no roteiro de Charles Randolph, de “A Grande Aposta”.

Margot Robbie vive uma colcha de retalhos de clichês constrangedores, Nicole Kidman e Charlize Theron são presenteadas com momentos que permitem algum aprofundamento, mas, na maior parte das vezes, defendem diálogos expositivos reducionistas. É tudo tão didático e tolo, que até a maquiagem protética (impecável, vale ressaltar) se torna um elemento negativamente distrativo. As suas ações jamais são questionadas, prejudicando o conflito com o sistema opressor que, em teoria, o filme alimenta desde o início.

Numa comparação livre, “O Escândalo” é afinado em diapasão similar ao do noventista “Patch Adams”, tão forçado em sua manipulação, os fios do titereiro são tão aparentes, que parece fantasia. É uma celebração da luta feminista pela ótica mais oportunista, carecendo de inteligência, péssima estratégia que até atrapalha a causa.

Cotação: 2 stars - Crítica de "O Escândalo", de Jay Roach

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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