A beleza do conservadorismo cultural vs. O revolucionário imediatismo digital

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Conservar é amar. Todo colecionador, não importa do que seja, ama profundamente o seu objeto de devoção, respeita o ritual envolvido em sua apreciação, luta para que ele se mantenha relevante na sociedade. Quem entra no meu quarto desde a infância percebe, em questão de segundos, que valorizo muito filmes e livros, que a arte é fundamental em minha formação.

Assim como nós somos perecíveis, as páginas dos livros amarelecem e as mídias físicas (VHS, DVD e Blu-ray) sofrem deterioração, por melhor que cuidemos delas, não há como escapar da finitude. Há um movimento atual de cinéfilos discutindo a ausência de aparelhos que rodem estas mídias no mercado, colocando lenha na fogueira da guerra das plataformas de streaming, logo, acho válido refletir sobre esta situação equilibrando a paixão intempestiva e a lucidez.

A realidade é dura, implacável, hoje é preciso caçar pelos shopping centers da cidade uma loja que ainda venda filmes em mídia física. Quando encontro, eles estão sempre jogados num cantinho pouco visitado, sem qualquer cuidado especial. No auge do DVD no Brasil, estes setores tomavam andares inteiros, com títulos organizados por gêneros.

O que eu faço? Sigo adquirindo filmes das distribuidoras, como a Classicline, a Versátil e a Obras-Primas do Cinema, que atendem com excelência o público de nicho, mas, claro, não posso limitar meu consumo cultural, existem títulos de todas as nacionalidades, épocas e gêneros que JAMAIS serão lançados oficialmente, então, como eu já fazia desde a adolescência, gravo estas pérolas e preservo na coleção. Nos raros casos em que alguma distribuidora decide lançar um destes títulos em melhor qualidade, simplesmente substituo, o que não posso admitir é NÃO ter aquele título na coleção.

Os revolucionários imediatistas que desprezam o conservadorismo defendem que o futuro é digital, só que as plataformas de streaming trocam constantemente o catálogo, além de oferecerem um conteúdo fraquíssimo no que tange clássicos e projetos obscuros. A ideia de possuir e cuidar da obra, poder admirá-la na estante, é parte do ritual de apreciação artística. O apaixonado por pinturas prefere ter várias obras em altíssima definição no HD externo ou uma reprodução de uma tela do Portinari emoldurada gloriosamente na parede da sala?

Já tive um HD externo danificado por causa de uma simples queda, perdi tudo que havia nele, logo, utilizo este recurso apenas como backup temporário, gravo os filmes em DVD, preparo um menu simples e objetivo com um programa gratuito no computador, registro no catálogo e guardo naqueles estojos que acomodam 6 mídias, por pura falta de espaço no ambiente. Se, por qualquer motivo, a mídia (oficial ou gravada) deixa de funcionar depois de um tempo, gravo novamente.

Quando coloco uma delas para rodar no aparelho, dedico atenção dobrada, há carinho envolvido no ato, a experiência é emocionalmente recompensadora, enquanto que, no streaming, fico muito mais tempo decidindo o que vou ver (a facilidade de acesso psicologicamente enfraquece o desejo pelo objeto, basta comparar o cinéfilo apaixonado da época das locadoras de vídeo com os cinéfilos preguiçosos de hoje), e, quase sempre, a atenção com o material que é finalmente escolhido é naturalmente reduzida, qualquer barulho na rua desvia o foco. O mesmo ocorre na comparação entre escutar um vinil ou CD, ato que convida à apreciação dedicada (incluindo a leitura do encarte e a arte da capa), e escutar faixas aleatórias no Spotify enquanto se exercita.

É da natureza humana desprezar o que não é ritualístico, você não respeita um médico que atende de bermuda e vestindo qualquer cor que não seja o branco, um padre sem batina ou uma sala de cinema com as luzes acesas, a teatralização é fundamental, pode ser usada em todas as áreas para o bem e para o mal.

A conclusão lúcida é que a apreciação artística está fadada em longo prazo à lata de lixo caso se priorize o abandonar gradativo do aspecto ritualístico. Aniquilando o conservadorismo cultural, o verniz descasca. A sociedade que não preserva os rituais, dá passos largos na direção do esvaziamento existencial.

Seja um colecionador apaixonado e estudioso, não um revolucionário na turba ateando fogo no passado.

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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