“O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone”, de Francis Ford Coppola

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O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone (The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone – 1990)

Don Michel Corleone (Al Pacino) está envelhecendo e, com a ajuda do sobrinho Vicente Mancini (Andy Garcia), busca a legitimação dos interesses da família, em Nova York e na Itália, antes de sua morte. Mas seu protegido não está só interessado em parte do império da família. Ele também deseja a filha de Michael, Mary (Sofia Coppola).

* O texto contém spoilers, então recomendo que seja lido após a sessão.

Coppola fez várias mudanças significativas que melhoraram muito a fluência do ritmo, rearranjando a ordem das sequências e aparando a duração de várias cenas, mas pode ser que não seja algo tão perceptível para aquele que não é apegado à obra, o ponto mais controverso, o que todos vão notar, é a opção do desfecho. No original, víamos Michael envelhecido, fragilizado e solitário, enquanto desabava desfalecido de sua cadeira, um fim humilhante, mas, de certa forma, generoso, redentor, o tormento havia terminado.

Na nova versão, o diretor propõe alternativa mais elegante e metaforicamente profunda, complementada pelo letreiro pré-créditos finais, vemos Michael, sozinho, envelhecido, mas a montagem sobrepõe seu rosto às imagens da valsa dançada com sua filha, evidenciando que ele realmente morreu em vida naquela noite trágica, anos antes, na escadaria da ópera, quando não foi capaz de salvar a jovem. O fade out exatamente no momento em que ele (alegoricamente) blinda seus olhos da dura realidade ao colocar os óculos escuros, entrega uma possibilidade aberta de desfecho muito mais terrível e áspera para o protagonista, o seu calvário está longe de terminar, Michael terá que viver com esta dor pungente na alma pelo resto dos seus dias.

O leitmotiv do insuportável peso da culpa (“o siciliano nunca esquece…”) é a força motriz do filme, após os eventos do segundo filme, reencontramos Michael naquele que pode ser considerado seu momento mais feliz na vida, já que havia finalmente conquistado a “legitimidade dos negócios” para sua família, e pretendia retomar a convivência com os filhos (ele nunca superou a rejeição de sua esposa), mas a trama conduz à eventos inesperados que o forçam a abandonar a sonhada paz (“quando penso que estou fora, eles me puxam de volta…”), e, pior, agregar ainda mais culpa à sua existência por introduzir o filho de seu irmão num esquema fadado à brutalidade (ainda que, neste caso, tenha apenas aceitado com resistência o desejo do rapaz).

A reedição se mostra certeira também ao eliminar o desnecessário flashback da morte de Fredo no desfecho do segundo e a cerimônia religiosa, reintroduzindo Michael diretamente em sua interação com o arcebispo (estabelecendo uma esperta rima na utilização da frase: “Don Corleone, preciso de ajuda…”, remetendo ao início do primeiro), que, no corte oficial só acontecia por volta dos 40 minutos, evento que dá o tom e prepara o espectador para a entrada de um elemento fundamental na trama, o filho ilegítimo de Sonny, que busca o respeito da família. No corte oficial, a chegada do rapaz na festa com a mãe era tratada como gordura extra, sem qualquer peso dramático, apenas uma figura exótica que demorava muito para reaparecer, alguém com quem o público sentia compreensível dificuldade em se importar organicamente.

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Ao trazer para o primeiro plano narrativo o personagem de Andy Garcia e resgatar o conceito original de um epílogo (Coda), desprezado à época pelos engravatados do estúdio por simplistas razões mercadológicas, Coppola consertou boa parte dos incômodos problemas estruturais da obra, que, agora, deixa de ser a esquizofrênica combinação de “greatest hits” dos filmes anteriores com uma subtrama escanteada envolvendo o sobrinho esquentadinho, para se firmar sozinha e com segurança enquanto pura elegia do personagem mais psicologicamente complexo da obra original de Mario Puzo, Michael Corleone.

A versão definitiva, superior em todos os sentidos à lançada em 1990, um tesouro inestimável para os fãs da trilogia.

Cotação: stars1 - "O Poderoso Chefão - Desfecho: A Morte de Michael Corleone", de Francis Ford Coppola

“Coda”, faixa da trilha sonora de “O Poderoso Chefão – Parte 3”, composta por Carmine Coppola, baseada no trabalho de Nino Rota:

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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