Mank (2020)

A história tumultuosa de Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman), roteirista da obra-prima icônica de Orson Welles (Tom Burke), “Cidadão Kane”, e sua luta contra Welles pelo crédito do texto do grandioso longa.

O diretor David Fincher retorna honrando o legado de seu pai, Jack Fincher, falecido em 2003, filmando o roteiro que o veterano jornalista havia escrito e que estava planejado para ser produzido no final da década de 90, abordando o conturbado desenvolvimento daquele que viria a ser celebrado pela crítica mundial por décadas como o melhor filme de todos os tempos, o eterno “Cidadão Kane”, de Orson Welles.

O conceito foi trabalhado outrora como resposta à um artigo polêmico da crítica Pauline Kael na década de 70, que contestava a autoria criativa de Welles na obra, texto repudiado publicamente à época pelo diretor Peter Bogdanovich e, através dos anos, destruído linha a linha por acadêmicos.

Fincher, consciente de que o roteiro do pai, perceptivelmente contaminado pelos argumentos de Kael, direcionava uma luz injustamente negativa aos esforços de Welles, amenizou um pouco este aspecto em várias revisões, aparou arestas, mas não foi o suficiente, deixa ao final o gosto amargo do ressentimento, elemento que infelizmente eclipsa a estilizada homenagem (adotando a fotografia monocromática, de Erik Messerschmidt, com lentes da época, além de efeitos de transição e técnicas de filmagem dos anos 30 e 40), não apenas ao produto que simboliza, acima de tudo, o confronto entre o corajoso jovem cineasta e o magnata da imprensa William Randolph Hearst, como também ao período histórico, a era de ouro de Hollywood.

A ideia brilhante de utilizar o cabeçalho da formatação básica de um roteiro como legenda nas cenas evidencia o leitmotiv simbólico da trama, a diferença entre a imagem glamourizada sintetizada que é vendida ao público e as entranhas da verdade nas engrenagens da máquina do sistema de estúdios.

É curioso notar neste sentido que a subtrama política, envolvendo a eleição de 1934 para o governo da Califórnia, em que o candidato de esquerda perdeu com a ajuda de uma campanha liderada por Hearst, com apoio dos produtores L.B. Mayer e Irving Thalberg, utilizando a teatralidade cinematográfica para mentir e demonizar o oponente, seja um reflexo exato do que a Hollywood progressista de hoje faz com Trump, desde antes mesmo dele ser eleito. O erro é o mesmo, só mudou de lado ideológico. Eu sinceramente não creio que represente um gesto irônico de autocrítica, principalmente considerando o posicionamento político de Fincher, mas funciona como um adorável deslize freudiano.

Tecnicamente primoroso, com uma atuação inspirada do sempre competente Gary Oldman, “Mank” é um prato cheio de referências saborosas para quem estuda (formal ou informalmente) a arte, com certeza será melhor apreciado por aqueles que verdadeiramente se interessam pela história do cinema, mas consegue prender a atenção até mesmo de quem nunca viu “Cidadão Kane”.

Cotação: 3 stars - Crítica de "Mank", de David Fincher, na NETFLIX

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