“Com a Corda no Pescoço”, de Jack Nicholson

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Com a Corda no Pescoço (Goin’ South – 1978)

Henry Moon (Jack Nicholson) é capturado enquanto tentava chegar ao México e acaba sendo levado para a forca. O único jeito de escapar do fim certo é casando-se com alguém. Henry consegue uma moça e acaba sendo perdoado de seus crimes, porém, ele deve agora tentar encarar um relacionamento de verdade.

O gênero faroeste já estava em declínio em Hollywood no período, até mesmo as produções com uma pegada mais cômica eram uma aposta comercialmente muito arriscada, o que demonstra a coragem de seu diretor, Jack Nicholson, que, atrás das câmeras, mantinha a atitude desafiadora que sustentava seus esforços como ator.

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O real desejo dele era comandar um Western aos moldes tradicionais, com estrutura clássica, artisticamente ambicioso, o trabalho seria tão complicado que havia decidido nem atuar nele, mas o projeto não saiu do papel, ele precisava então encontrar algo que pudesse realizar com orçamento mais modesto. Ele então se interessou por um roteiro que já passava de mão em mão na indústria, escrito por John Herman Shaner e Al Ramrus, que chegou a despertar o interesse de Jane Fonda, mas ela ficou receosa em retornar ao tema, uma trama espirituosa, com humor afiado, ambientada no Velho Oeste.

No elenco, chamou seus amigos, Danny DeVito, Tracey Walter e Christopher Lloyd, deu uma chance para John Belushi, comediante que vinha do programa “Saturday Night Live”, e, de forma despretensiosa, durante uma pausa para lanchar, convidou uma adorável jovem garçonete, Mary Steenburgen, que se tornaria uma das mais respeitadas atrizes de sua geração.

Os primeiros 15 minutos são simplesmente hilários, da perseguição ao bandido, passando por uma desnecessária e cruel confissão de sua amada na prisão, até seu salvamento de última hora pela caridade de uma nobre senhorinha, que, segundos depois, acaba infartando de tanta emoção. É extremamente competente como as situações são construídas privilegiando o choque, alicerçadas no carisma transbordante de Nicholson. O tom é rapidamente estabelecido, segurando o espectador pelo colarinho, lição provavelmente aprendida com seu mestre Roger Corman.

O relacionamento entre Moon (Nicholson) e Julia (Steenburgen) remete à “A Megera Domada”, de Shakespeare, já que fica claro para o rapaz logo nos primeiros momentos de intimidade que a moça enxergou nele apenas mão de obra barata, a grosseria gratuita impera no lar, com o estilo teatral exagerado potencializando até os diálogos mais simplórios, até mesmo quando os dois descobrem que não são tão diferentes como pensavam.

É comum encontrar textos de colegas críticos norte-americanos apontando esta escolha consciente como um defeito, mas considero que é exatamente o que distingue o filme de seus similares e, vale destacar, um elemento que favoreceu a sua atemporalidade.

“Com a Corda no Pescoço” é uma pérola que merece ser redescoberta.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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