“O Amor é Cego”, de Peter e Bobby Farrelly

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O Amor é Cego (Shallow Hal – 2001)

A história gira em torno de Hal (Jack Black), que aceitou o conselho de seu pai moribundo e namora apenas as formas da perfeição física feminina. Porém tudo muda após Hal ter um encontro inesperado com um guru, Tony Robbins. Intrigado pela superficialidade de Hal, Robbins o hipnotiza para que ele veja a beleza que existe mesmo em mulheres menos atraentes fisicamente, o que conduz a trama para o seu encontro com Rosemary (Gwyneth Paltrow).

A patrulha do terrível “politicamente correto” aniquilou a criatividade dos comediantes competentes, aqueles que, por integridade, jamais cogitariam se adequar à censura politiqueira dos titereiros desta bobagem nonsense, vários profissionais simplesmente abandonaram a indústria, outros, como o diretor Todd Phillips, com seu “Coringa”, encontraram uma maneira inteligente de criticar duramente a situação, debochando da patota debaixo dos narizes deles, evidenciando claramente a hipocrisia, a dissonância cognitiva, mas, ainda assim, os cinéfilos apaixonados ficaram carentes de bom material no gênero.

Os irmãos Farrelly reinaram na década de 90, pérolas como “Debi e Lóide”, “Quem Vai Ficar Com Mary?” e “Eu, Eu Mesmo e Irene” marcaram a vida da garotada da época, humor cáustico, sem concessões, em suma, indomável como a comédia deve ser. Quando “O Amor é Cego” foi lançado, já haviam sinais desta transformação nada orgânica no sistema, as críticas, ao invés de analisarem a eficiência do roteiro considerando a proposta da obra, pareciam objetivar deslegitimar o esforço dos realizadores por causa da temática escolhida.

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Eu, como um adolescente que ainda não havia atuado como profissional na área, desconhecendo o esquema dos bastidores, fiquei surpreso com a desonestidade intelectual dos (hoje) colegas, pensava que, caso utilizassem a mesma métrica, até mesmo os melhores trabalhos do grande Mel Brooks seriam jogados automaticamente no lixo. Aquela abordagem não fazia sentido, já que o filme, apesar de não ser brilhante, funcionava perfeitamente bem, fazia rir com folga.

Hoje compreendo que, por trás dos panos, já se iniciava o processo cultural que culminou no “novo normal”. Não se pode estimular que o povo ria das diferenças, pense no lucro perdido, elas são fundamentais para que se financie o conflito constante, sem a celebração da vitimização (e as naturais consequências psicológicas desta atitude), a massa de manobra fica livre demais, os titereiros do caos ganham muitas horas ociosas.

Um ponto fundamental no roteiro que passa despercebido nas mentes adestradas dos “canceladores” modernos é a mensagem, os irmãos Farrelly entregam uma história de amor profundamente honesta. Ao final, o frívolo Hal (Black) reconhece como havia agido a vida inteira como um tremendo palerma, valorizando apenas a estética, o conceito subjetivo de beleza, ele, elemento brilhante da trama, um homem que fisicamente não se adequa aos padrões (baixinho e acima do peso), finalmente entende que também é vítima do mesmo julgamento social.

E, talvez, seu comportamento fútil na vida adulta se explique como projeção inconsciente de um revide pelo bullying que provavelmente sofreu na infância e adolescência. Nenhum texto à época salientou este aspecto que é óbvio na seleção do ator para o elenco, longe da imagem estereotipada de galã hollywoodiano, mas, faz sentido, já que não havia interesse genuíno em verdadeiramente analisar a obra.

“O Amor é Cego” merece ser redescoberto até como antídoto para o “politicamente correto” que domina a indústria hoje, uma comédia que segue eficiente, charmosa, simples, intensamente popular.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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