A Noite (La Notte – 1961)

“A vantagem de um falecimento prematuro é que você foge do sucesso…”

O que interessa para as lentes de Antonioni é o que se passa no inconsciente de cada personagem, não os acontecimentos exteriores, que quase sempre se mostram triviais e desinteressantes. O casual espectador que for atraído para o filme ignorando este conceito, poderá utilizar estes elementos como argumentos para seu desagrado.

Nos primeiros minutos, quando o personagem de Marcello Mastroianni e sua esposa vivida por Jeanne Moreau, prestam uma visita a um amigo, podemos perceber claramente o estilo do diretor. A referência constante em suas obras aos helicópteros, símbolos do caos inerente à modernidade, faz-se presente em dois momentos: atraindo a atenção de Lidia (Moreau) ao interromper com seu som o rumo da conversa e pouco mais tarde, de forma mais lúdica, quando o barulho de sua passagem é inserido simbolicamente no pequeno momento entre Giovanni (Mastroianni) e uma perturbada paciente do quarto vizinho, que extravasa fisicamente com ele sua carência, sua solidão.

O título do livro de Giovanni expressa diretamente a conduta dos personagens: “Sonâmbulos”. Alienados e impotentes perante os desafios diários, como sonâmbulos eles mantém seus rotineiros sorrisos e gestos, escondendo com seus olhos abertos o vazio de suas almas. Enquanto autografa de forma mecânica seus livros, para pessoas que provavelmente nunca o lerão, uma cena que simboliza entre outras coisas, os rituais de uma sociedade deteriorada, uma vida de aparências, o escritor mantém sua mente distante e não percebe que sua esposa deixou o local em busca de emoções reais, instintivas e naturais.

O tema central do filme consiste em uma busca desesperada de uma esposa por um sentimento perdido, esquecido entre as criativas e impulsivas juras de amor do passado e o tédio empoeirado na gaveta da convencionalidade.

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Viva você também este sonho...

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