O Grande Ditador (The Great Dictator – 1940)

Um barbeiro judeu passa anos em um hospital do exército se recuperando de suas feridas após ter servido na guerra, sem saber do crescimento de poder do ditador fascista Adenóide Hynkel e suas políticas antissemitas. Quando o barbeiro retorna ao seu bairro tranquilo, ele fica atordoado com as mudanças brutais e, de forma imprudente, se une a uma menina (Paulette Goddard) bonita e seus vizinhos para se rebelar.

Charles Chaplin, mesmo desconhecendo na época a real extensão da maldade que o regime alemão estava operando nos campos de concentração, enxergou claramente na prática da segregação sanitária (sim, muitos não sabem, mas o argumento inicial era de que os judeus transmitiam doenças), na criação de cidadãos de segunda classe, impedidos de viver em sociedade, um gesto desumano, verdadeiramente grotesco, e, sendo um homem muito inteligente, culto, antecipou que aquela atitude maligna não acabaria bem, logo, optou pelo caminho mais arriscado em sua posição, utilizou sua arte e sua gigantesca popularidade mundial para enfrentar diretamente Hitler e Mussolini, sem alegoria, sem rodeios.

Entenda, na época em que o filme foi lançado, os EUA ainda estavam em paz com a Alemanha, ainda adotavam uma postura neutra, o que torna ainda mais admirável o esforço do artista. É como se, hoje em dia, um astro de Hollywood internacionalmente respeitado produzisse um filme debochando do ditador comunista chinês.

O ponto mais importante no contexto criativo foi a decisão de, pela primeira vez, dar voz ao seu personagem. Quando o cinema falado chocou o mundo e mercadologicamente acabou com o apelo dos mudos, Chaplin foi a rara figura que ousou firmar o pé e seguiu produzindo seus filmes “à moda antiga”, ele realmente acreditava que o som não trazia nada relevante para o seu trabalho. É possível imaginar então como foi difícil para ele repensar este posicionamento enquanto produzia “O Grande Ditador”.

Ele, após uma sessão de “Triunfo da Vontade” (1935), a peça de propaganda nazista de Leni Riefenstahl, visualizou um caminho para seu revide, considerou cômico e patético o gestual exagerado de Hitler, logo, estudou sua oratória, captando o caráter farsesco e perigoso. Não havia como transmitir a mensagem que ele considerava importante sem utilizar os mesmos recursos de seu antagonista, o impacto não seria o mesmo se ele se limitasse à pantomima, finalmente havia chegado o momento do Carlitos FALAR.

O monólogo final, escrito pelo próprio Chaplin, é uma preciosa aula humanista, um crescendo catártico defendido por um homem visivelmente emocionado. A cena transcende o poder inspirador do cinema.

O discurso final, legendado, um dos momentos mais importantes da história do cinema:

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