Analisando cenas de “Ben-Hur”, filme que despertou minha paixão por cinema

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Ben-Hur (1959)

Seria impossível selecionar apenas uma cena nesta obra que é a responsável por minha paixão pela sétima arte, desde quando a vi pela primeira vez aos quatro anos de idade.

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Escravo nas Galés

Em um soturno ambiente onde muitos homens já se mostram resignados e sem esperança alguma de liberdade, Judah (Charlton Heston) é o único movido pelo ódio. A trilha de Miklos Rozsa acompanha o ritmo das batidas dos martelos, que vão gradualmente acelerando por ordem do cônsul romano, que está informalmente testando a qualidade dos homens a serviço da embarcação. Ele os põe a prova, mas com a certeza de que não irão resistir ao árduo esforço. A fortaleza nos olhos do número 41 coloca em risco suas convicções, ousando confrontá-lo como igual. Desde a primeira cena em que os dois se encontram, estabelece-se que o judeu é o único escravo que encara o cônsul e se dispõe a reagir instintivamente à sua agressão, porém com a sensatez de saber controlar seu impulso. A coragem é sempre uma qualidade valorizada pelos líderes. O sorriso irônico de Quintus Arrius (Jack Hawkins) passeia por cada corpo esquálido que tomba sobre seu remo, com a câmera de William Wyler enfatizando o foco no olhar de Judah, que mira diretamente seu momentâneo algoz. Quando ele permite que todos descansem, somente um homem se mantém em posição, como se mostrasse estar pronto para continuar na ingrata tarefa pelo tempo que fosse preciso. Ao escolher desacorrentar Judah, o
dignitário romano já reconhecia nele a atitude de um caráter livre. O verdadeiro escravo sempre foi o próprio cônsul, como é demonstrado nas cenas anteriores ao resgate e de suas tentativas de suicídio. O romano chega a afirmar ao jovem sua desesperança pessoal, ao dizer que seus deuses não irão ajudar em nada, assim como os deuses do judeu. Ao ser questionado sobre a razão de sua desesperança, sua única resposta é a agressiva evasão argumentativa.

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Corrida de Quadrigas

Esse marco na história do cinema, orquestrado por Yakima Canutt em eletrizantes cinco semanas de filmagens, empolga os sentidos e possui uma força maior ainda em sua mensagem. A escolha pelo silêncio potencializa essa vibrante metáfora. Nem sempre o cavalo que leva mais chicotada é aquele que corre mais, pois o açoite é apenas uma forma de impor a insegurança do homem perante o animal que controla. A violência é o
descontrole da emoção, um elemento que deve ser disciplinado. Messala (Stephen Boyd) precisa lembrar sempre a seus cavalos de que está no comando, enquanto Judah estabeleceu com os animais uma conexão de companheirismo e confiança, sem machucá-los em nenhum momento. No auge de seu desespero psicologicamente imaturo, o romano ludicamente busca adestrar seu antagonista, direcionando para ele o chicote. Ele percebe que Judah é uma força de caráter inabalável, com uma ideologia que não tomba nem diante do pior castigo, então apela para sua última opção: domá-lo a força. E neste momento o roteiro entrega um detalhe importante, que diz muito sobre a personalidade do protagonista em seu arco narrativo. Ele revida energicamente as chibatadas no corpo do homem que causou toda sua desgraça. Essa cena rima com a que citei anteriormente, onde ele contém o impulso do revide após a chibatada de Quintus Arrius. Mas tão logo se surpreende com a queda de seu inimigo, o jovem rejeita vigorosamente aquele instrumento de ódio. Ao mesmo tempo em que ele quer empunhar a espada da guerra, existe uma faceta sua que acredita na paz como força transformadora. Ele precisa apenas conquistar o equilíbrio.

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Milagre e Redenção

A câmera se mantém atravessando o rio formado pela chuva, que carrega e transporta o sangue do crucificado. A trilha de Rozsa exulta o aspecto divino na cura da lepra na mãe (Martha Scott) e irmã (Cathy O’Donnell), mas o real milagre ocorre internamente em Judah. A composição da cena de sua chegada em casa é magnífica, desde o belo detalhe de Esther (Haya Harareet) no reflexo da água da chuva que é chapinhada pelos pés do jovem, evidenciando a rima imagética da chuva que carrega o milagre encontrando o rapaz que busca redenção. Ele encontra inicialmente o resultado de sua agressividade na mezuzá
danificada, que agora beija com renovado respeito. A trilha de Rozsa evoca sutilmente o tema de amor em sua forma original, reforçando que estamos novamente diante daquele casal em sua forma pura de outrora, antes de todas as desgraças que ocorreram a ambos. Judah encosta seu rosto no ventre da mulher, como se suas esperanças renascessem nela, afirmando que finalmente havia sentido a espada cair de sua mão. Rozsa então nos carrega pela mão num emocionante crescendo que resulta no forte tema heroico do protagonista, abraçado às mulheres de sua vida. Todo o tremendo esforço valeu a pena. Judah precisava
apenas reencontrar-se consigo mesmo, com o espírito íntegro que possuía antes de ser contaminado pelo ódio e desejo de vingança.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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