Entrevista com Catherine, filha do grande diretor William Wyler

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Todos que acompanham meu trabalho sabem sobre a importância do filme “Ben-Hur” em minha cinefilia. Charlton Heston na quadriga emoldura meu perfil nas redes sociais, o pôster fica ao meu lado na mesa de trabalho, enquanto outra imagem do filme veste a parte superior do laptop em que escrevo meus textos. Foi a obra que despertou minha paixão pelo cinema, quando o assisti pela primeira vez, aos quatro anos de idade. Gratidão eterna. Com o tempo, acabei conhecendo toda a filmografia espetacular de seu diretor: William Wyler. Bastaria eu citar alguns de seus projetos mais famosos, como “O Morro dos Ventos Uivantes” (com Laurence Olivier e Merle Oberon), “A Carta”, “Pérfida” (ambos com Bette Davis), “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, “Tarde Demais” (com Montgomery Clift e Olivia de Havilland), “Chaga de Fogo” (com Kirk Douglas), “A Princesa e o Plebeu” (com Audrey Hepburn e Gregory Peck), “Da Terra Nascem os Homens” e “O Colecionador”, para você entender a tremenda importância desse cineasta que era avesso à autopromoção, o que explica em parte o fato de seu nome não ser lembrado como merece, mesmo tendo construído uma carreira impecável em diversos gêneros, enquanto outros de qualidade instável e limitados foram mitificados.

Sua filha, Catherine Wyler, carinhosamente aceitou responder algumas questões sobre o legado do pai, fazendo questão de repetir o gesto de Laura Truffaut e Ginger Alden, enviando ao final essa foto, que faria o garoto de outrora, que cantarolava pela casa a trilha sonora de Miklos Rozsa, orgulhoso do profissional que hoje me sorri no espelho.

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O – “Ben-Hur” foi o filme que me despertou a paixão pelo cinema, quando o assisti aos quatro anos de idade. Escrevi sobre essa experiência em meu livro: “Devo Tudo ao Cinema”. Daquele dia em diante, eu me tornei um fã da incrível versatilidade de seu pai. Você poderia relembrar um pouco da sua experiência na época da filmagem? O que esse filme representava para ele? Como você analisa o impacto dele nos tempos atuais?

W – Estar em Roma durante as filmagens de “Ben-Hur” foi uma experiência inesquecível e fabulosa, ainda que eu estivesse na universidade, então só pude acompanhar durante o verão; perdi muito com isso.

Willy adorava desafios. Quando foi oferecido pra ele o projeto, ele acreditou que seria interessante fazer o que ele chamava de “um filme de Cecil B. DeMille”. Ao invés de selecionar algum gênero específico, ele sempre quis fazer todos os tipos de filmes. Esse foi seu primeiro e único “épico”. Não sei mensurar seu impacto hoje, mas eu posso garantir que raramente encontro pessoas que não tenham visto mais de uma vez.

Hoje em dia acho divertido relembrar que aquela multidão durante a corrida de quadrigas, além das outras cenas imponentes, eram compostas por pessoas de carne e osso, não havia computação gráfica em “Ben-Hur”.

O – Seu pai dirigiu grandes atores: Davis, Olivier, Heston, Havilland, entre outros. Como ele lidava com o ego e o temperamento desses astros? Havia prazer e inspiração ao lidar com o elenco, ou ele apenas esperava que os atores fizessem o trabalho da forma como haviam trabalhado nos ensaios?

W – Eu acredito que ele tinha um sexto sentido sobre lidar com atores, uma inata sensibilidade que o ajudava a tratar com cada ator de maneira que ele conseguisse o resultado desejado, a melhor interpretação possível. Ele não gostava de trabalhar com atores amadores, sem treino, ele valorizava o talento e, acima de tudo, o profissionalismo.

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O – Ele fez parte da era de ouro de Hollywood, sendo considerado como amplamente responsável pela sua magia. Nós sabemos que o sistema dos estúdios era muito rígido e que não era fácil para muitos cineastas. As intervenções/imposições dos executivos deixavam ele irritado, ou ele considerava aquilo como um desafio a mais que inspirava sua criatividade?

W – O sistema de estúdio tinha muitos prós e contras. Eu acho que ele considerava um desafio, mas também um incômodo. E ele nunca pensou duas vezes antes de lutar por aquilo em que acreditava. Invariavelmente, a fricção que ocorria entre ele e os produtores criava até um resultado superior ao que teria sem as discussões.

O – Abordando uma faceta dele mais íntima, acredito que a música era um fator importante em sua mente criativa. Que tipo de música ele escutava em casa? Ele tinha algum método/mania peculiar durante a preparação e a filmagem de um projeto?

W – Meu pai tocava violino antes de perder muito de sua audição durante a Segunda Guerra. Ocorria muitas festas musicais em nossa casa, ele adorava todos os tipos de música. Após a guerra, ele não costumava escutar música como recreação, ele tinha dificuldade por causa do zumbido no ouvido.

O único fato recorrente de que me lembro é que, em certo ponto, ele começou a ser atormentado por fortes enxaquecas que sempre iniciavam ao meio-dia. As filmagens de “Sublime Tentação” foram particularmente dolorosas por esse motivo.

O – Seu pai atravessou as grandes transições de som e cor, sempre realizando ótimos filmes. Como era a relação dele com a cor em seus projetos? Ele se sentia mais confortável filmando em preto e branco?

W – Eu acredito que ele gostava do colorido e do preto e branco por suas diferentes propriedades. Ele queria filmar “A Princesa e o Plebeu” em cores, mas em 1952 não haviam laboratórios em Roma que pudessem trabalhar o filme colorido. Ele teria que ser enviado de navio para os Estados Unidos, retornando antes que eles pudessem assistir as diárias. Era impossível.

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O – Na sua opinião, qual seria a reação de seu pai com o cinema digital? Acredita que ele abraçaria a tecnologia como um novo desafio? O que você sente, como filha, sabendo que a indústria irá refilmar “Ben-Hur”?

W – Assim como ele abraçou o som quando jovem, tenho certeza que ele aceitaria o desafio do cinema digital, mas provavelmente, ainda que não revelasse, com muita nostalgia pelo filme. Sobre a refilmagem que estão fazendo, será interessante ver se ficará boa. A razão que faz com que o épico do meu pai seja lembrado até hoje é que as cenas intimistas eram reais, críveis. Acho que será difícil superar isso.

O – Você poderia abordar a coragem de seu pai ao levantar a espinhosa questão da homossexualidade no início da década de sessenta, algo que era proibido pelo Código de Produção, quando ele refilmou seu próprio “Infâmia”, originalmente de 1936? E, continuando no tópico, qual sua opinião sobre esse tema em “Ben-Hur”? Seu pai concordou de imediato com o ponto de vista de Gore Vidal?

W – Ainda que ele estivesse muito intrigado com a ideia de filmar a segunda versão de “Infâmia” , como ela havia sido originalmente escrita, quando o resultado não foi financeiramente bem-sucedido, ele criou para si um novo lema: “Você nunca deve refilmar seus próprios filmes”.

Sobre o relacionamento entre Judah e Messala, na época, o destino financeiro da MGM estava na corda bamba. Aquele estava sendo o filme mais caro já feito, o estúdio iria falir caso não fosse um sucesso. Willy disse ao Gore, sem rodeios, que nenhuma sugestão de homossexualidade deveria constar no corte que seria assistido, mesmo que esse elemento pudesse tornar o relacionamento entre os personagens mais compreensível e narrativamente interessante.

O – Ele foi um dos mais celebrados e lembrados nas premiações da Academia. Qual era a opinião dele a respeito de prêmios? Como ele realmente se sentia? Ele ficava envaidecido, ou entendia aquilo como parte necessária na engrenagem que move a indústria?

W – Ele sempre ficava feliz ao receber prêmios que significassem verdadeiramente algo. Ao mesmo tempo, ele se entediava com a necessidade da publicidade. Acho que hoje ele não é tão lembrado, quando comparado a outros de sua época, exatamente por nunca ter dedicado tempo em sua própria imagem.

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O – Você consegue identificar a influência de seu pai em diretores da atualidade? Algum diretor jovem já abordou isso diretamente contigo?

W – Eu sei que muitos diretores contemporâneos são grandes fãs do meu pai, como Alexander Payne, por exemplo, mas nunca discuti sobre isso com eles. Eu sinceramente espero que esses jovens valorizem a persistência do meu pai em sua batalha pela honestidade e realismo, seu hábito em contar histórias com real valor humano.

O – Os meus filmes favoritos de seu pai, além de “Ben-Hur”, são “O Colecionador”, “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”, “Tarde Demais” e “Chaga de Fogo”. Imagino que seus favoritos variem com o tempo, mas quais seriam seus favoritos hoje?

W – Os meus favoritos são “Fogo de Outono”, “O Morro dos Ventos Uivantes”, “A Carta”, “Memphis Belle”, “Tarde Demais”, “A Princesa e o Plebeu”, “O Colecionador” e, acima de todos, “Os Melhores Anos de Nossas Vidas”.

O – Catherine, você poderia deixar uma mensagem para meus leitores, que, assim como eu, admiram o legado artístico de seu pai?

W – Obrigada pelo carinho, Caruso. É surpreendente, um tanto quanto triste, que as pessoas de outros países normalmente reconheçam mais os filmes dele, que os próprios americanos. Então só posso saudar carinhosamente os cinéfilos brasileiros, agradecendo por manterem vivos os filmes e a memória de meu pai.

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Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

1 COMENTÁRIO

  1. Prezado Caruso, bela página, bela homenagem ao gigante da Cinematografia William Wyler. Não sei se você sabia, que Wyler esteve no Brasil em 1973. Passou por Congonhas do Campo, em Minas gerais, e deu uma entrevista para a Revista Veja. Uma outra curiosidade, é que o diretor iniciou a carreira dirigindo filmes curtos para a Universal. o primeiro deles foi o faroeste, "Crook Buster",de 1925, com Jack Mower, Edmund Cobb e com uma pontinha de Janet Gaynor(aos 19 anos). Foi o radialista e tradutor Ramos Calhena, a voz mais poderosa do Brasil, que narrou pela primeira vez o trayler de "Ben Hurr" para os Cinemas. Infelizmente nunca tive a oportunidade de ver nos Cinemas, mas em minha opinião, a emoção de ter visto na TV (TV Globo), foi simplesmente inesquecível. O encanto e a comoção que emana este grandioso filme, é único na história. Para a Sra. Catherine, um beijo no coração (Marcos Lima).

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