Entrevista com Cecilia Peck

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    Quem nunca sonhou em ter como pai o advogado Atticus Finch,
    de “O Sol é Para Todos”, escolhido como o maior herói do cinema pelo American
    Film Institute? Um dos filmes mais importantes na carreira do ator americano
    Gregory Peck, um dos nomes mais respeitados da época de ouro de Hollywood, não
    somente pelo talento, como também pelo caráter e integridade, tendo presidido,
    de 1967 a 1970, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, conhecida
    popularmente por sua premiação anual, simbolizada por uma estatueta dourada, um
    tal de Oscar, que talvez você, caro leitor, querida leitora, conheça. Brincadeiras
    a parte, é com enorme prazer que presenteio você com mais uma entrevista
    exclusiva, com a filha do ator, Cecilia Peck, atriz e diretora competente, que lançou
    recentemente um ótimo documentário intitulado “Brave Miss World”. Ela, num
    gesto de carinho, fez questão de me enviar essa linda foto. Thanks, Cecilia!

    O – Inicialmente, gostaria de dizer que “Brave Miss World” é
    um filme fantasticamente corajoso, não apenas pelo tema, mas, especialmente,
    pela forma como o documentário escolhe examinar o sistema judicial. Parabéns
    pelo trabalho. Como você decidiu contar a história de Linor Abargil?

    P – Quando Linor Abargil foi coroada Miss Mundo em 1998,
    apenas seis semanas depois de ter sido vítima de um sequestro terrível, tendo
    sido esfaqueada, e estuprada em Milão, Itália, ela prometeu um dia falar sobre o
    trauma. Levou dez anos para ela se sentir preparada para falar. Uma vez que ela
    decidiu contar sua história, ela veio para Los Angeles para se encontrar com os
    diretores. Foi graças ao meu amigo, o diretor Hugh Hudson, que eu conheci Linor
    e seu amigo próximo: Motty Reif, que está no filme. Eu fui para a primeira reunião
    com o nosso editor e produtor Inbal Lessner. Ela nos revelou tudo o que tinha
    vivido, dizendo que queria falar com sobreviventes em todo o mundo e
    incentivá-los a não se envergonharem e não ficarem em silêncio. Linor não tinha
    vergonha em falar sobre ter sido estuprada. “Por que eu deveria ter
    vergonha?”, ela disse, “A culpa foi dele, não minha.” Como uma
    pessoa que estava disposta a trazer à tona o momento mais doloroso de sua vida,
    porque ela acreditava que, com essa atitude, poderia ajudar os outros nesse
    processo de cura, ela se dedicou ao extremo. Para mim, como diretora, fazia
    sentido como um acompanhamento ao meu filme anterior, “Shut Up &
    Sing”, outra história de mulheres corajosas que lutam por algo em que
    acreditam. Tenho muito interesse em mulheres que expressam coragem em suas
    convicções, que sacrificam tudo em prol de ajudarem outrem. Por causa da
    coragem de Linor em contar a sua história, “Brave Miss World” está ajudando sobreviventes
    em todos os lugares a superarem o trauma. O filme carrega, essencialmente, uma
    mensagem muito positiva de esperança.

    O – Acredito que o silêncio das vítimas, no tocante a esse
    assunto, explicado parcialmente pelo medo e pela vergonha, tenha sido um
    obstáculo difícil em suas entrevistas. Como você superou isso? Você teve muitos
    problemas no processo de filmagem?

    P – As mulheres que são entrevistadas no filme querem acabar
    com o silêncio e a vergonha, vencendo o medo que envolve o estupro. Não foi
    fácil para elas serem filmadas, mas, fazer parte de algo que poderia ajudar
    outros sobreviventes pelo mundo as fez se sentirem menos envergonhadas e,
    principalmente, menos solitárias, isso era muito importante para elas. As
    entrevistas foram difíceis para elas, para Linor, e uma experiência muito
    emotiva para todos nós. Mas todas as mulheres entrevistadas no filme têm comparecido
    nas exibições, ficando no palco com a gente, respondendo às perguntas, com o
    orgulho de quem optou não manter o silêncio. Uma delas foi perguntada: “Por que
    você estaria em um filme sobre ser estuprada?” Sua resposta foi: “Eu não
    queria que ninguém do meu círculo social pensasse que não conheciam alguém que
    havia sido estuprada”. Sua crença, compartilhada por Linor e todos nós, é que
    temos de reconhecer que uma entre cada cinco mulheres no mundo foi estuprada,
    que acontece em todos os lugares, em todos os países, cidades e escolas, em
    todas as famílias, de todas as classes sociais. Uma vez que paremos de negar
    isso, então podemos começar a colocar pressão sobre os sistemas de justiça para
    fazer cumprir as leis que protegem as vítimas. “Brave Miss World” é um dos
    filmes que está ajudando a aumentar a conscientização global, e, em particular,
    nos EUA, em torno da questão do estupro no campus universitário. Nosso site,
    http://www.bravemissworld.com, tem quase 1.000.000 de visitantes.

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    O – Eu adoro o documentário “A Conversation with Gregory
    Peck”, que você produziu em 1999. O legado do seu pai deve ter sido uma bênção
    em sua carreira. Acredito que toda criança no mundo já tenha sonhado em ter,
    como pai, Atticus Finch. Como o Sr. Peck era nessa função?

    P – Eu tive pais extraordinários. Meu pai e minha mãe, Veronique,
    eles se amavam intensamente, presenteando os filhos com o dom de acreditar que
    o amor é real e possui um valor muito significativo. Como pai, ele era muito
    rigoroso, mas, na mesma medida, muito carinhoso. Ele sempre foi justo e muito honesto.
    Ele estava trabalhando constantemente na época, mas sua presença imponente era
    sentida na casa quando ele não estava. Ele adorava estar com sua família e era
    um grande contador de histórias com um maravilhoso senso de humor. Ele era
    amável e gentil. Ele era inflexível sobre a importância de uma boa educação e
    do trabalho duro. Crescendo com ele, aprendi que não há nada valoroso que venha
    fácil, sem esforço. Você precisa sacrificar muito para fazer algo que seja
    significativo. Claro que seus filmes tiveram um grande impacto sobre mim. Eu
    não acho que ele escolheu seus projetos pensando apenas no potencial deles de
    impacto social, mas ele tinha profundo interesse nos temas de justiça social.
    Eu acredito que ele foi um dos poucos astros de cinema de seu tempo que estava
    disposto a defender filmes polêmicos, como “O Sol é Para Todos” e “A Luz é Para
    Todos”. Esses filmes tinham o poder de curar. Os valores e o caráter do meu pai
    eram muito parecidos com o seu personagem em “O Sol é Para Todos”, e, talvez, além
    de ser influenciada por aqueles filmes, eu herdei um pouco do caráter desse
    personagem. Uma espécie de compulsão para defender a justiça. É claro que o meu
    pai também fez muitos filmes lindos que não abordavam justiça social, grandes
    histórias que cumpriam a função de divertir o público, criando personagens queridos,
    como em “A Princesa e o Plebeu”.

    O – Eu sempre tive a crença de que seu pai valorizava muito
    mais o aplauso como ator, ao invés da celebração exagerada como um mítico astro
    de cinema, exatamente pelas escolhas ousadas e corajosas em alguns projetos, em
    vários gêneros. Ele nunca se sentou confortável em um estereótipo de “herói”,
    sempre tentou mais que seus colegas da época. Estou próximo da verdade?

    P – Você está certo. Ele foi frequentemente escalado para
    papéis heroicos porque o público queria vê-lo dessa forma. Mas muitos de seus
    heróis têm complexidades morais, e, a sua habilidade de ser capaz de enxergar a
    vida interior e o tumulto psicológico desses personagens, foi um dos elementos
    que fizeram de meu pai um grande ator. Ele tentou atuar em uma grande variedade
    de papéis, e, junto com os heróis, ele interpretou muitos personagens
    obsessivos e vilões. Ele dizia que era mais difícil interpretar os papéis heroicos
    do que os “bandidos”. Era um desafio muito maior fazer os heróis soarem
    verossímeis, emocionalmente complicados, em suma, interessantes para o público
    assistir.

    O – Acredito que a música tenha sido um fator importante na
    mente criativa de seu pai. Qual tipo de música ele escutava em casa?

    P – Meus pais escutavam música constantemente na casa. Quando
    eu era criança, um dos meus trabalhos era colocar os discos de volta nas capas,
    tomando cuidado para não riscá-los, devolvendo os discos ao seu lugar adequado
    no armário. Meu pai escutava de tudo, desde ópera (Leontyne Price, Jesse
    Norman) até música clássica (Beethoven, Brahms, Mozart), jazz (Dave Brubeck,
    Ramsey Lewis), bossa nova (Jobim, Sergio Mendez), vocalistas femininas (Billie
    Holiday, Lena Horn, Peggy Lee), Motown (Aretha Franklin, Diana Ross, Stevie
    Wonder). Havia sempre uma grande mistura desses gêneros tocando o dia todo,
    juntamente com os Beatles, Frank Sinatra, missas de réquiem, canto gregoriano,
    e Blues, tudo misturado. Eu acho que seu favorito, dentre todos, foi Sinatra.

    968full gregory peck - Entrevista com Cecilia Peck

    O – Cecilia, você tem alguma história interessante, de
    bastidores, de quando visitava seu pai em alguma produção?

    P – Eu trabalhei com meu pai duas vezes. Interpretei sua
    filha em um filme chamado “O Retrato”, com Lauren Bacall, em 1993. “Betty”
    Bacall e meu pai contavam histórias engraçadas e, da manhã até a noite, mantinham
    todos entretidos no trailer de maquiagem e no set. A brincadeira entre eles era
    deliciosa. Eles haviam trabalhado juntos em 1957, em “Teu Nome é Mulher”, e ficaram
    grandes amigos por toda a vida. Eles estavam agora por volta dos seus setenta
    anos, flertavam e realmente adoravam trabalhar juntos novamente. Mas suas
    histórias engraçadas não eram apenas um para o outro. Eles estavam mantendo
    todos na equipe em um constante estado de bom humor, certificando que todos tivessem
    uma grande experiência. Atores mais jovens, por vezes, são mais egocêntricos
    nos sets de filmagem. Os experientes são mais generosos e inclusivos com
    aqueles profissionais que doam tanto para o projeto. Tive a chance de constatar
    isso pessoalmente com o meu pai, muitas vezes, enquanto eu estava crescendo.
    Ele nunca agia como a estrela. Sempre se considerava parte de um todo, um
    coletivo criativo. Eu trabalhei com ele novamente em 1999, quando Barbara
    Kopple e eu fizemos o documentário “Uma Conversa com Gregory Peck”. Era um
    filme muito pessoal, um olhar terno para o passado, em sua vida e carreira,
    família e amigos, e o relacionamento com a minha mãe. Estávamos muito nervosos quando
    mostramos para ele o corte bruto. Havia muitas cenas íntimas e não sabíamos se
    ele iria querer uma série de mudanças. Ele nos disse que ele amava o filme. Ele
    só pediu uma mudança. Ele disse: “Você se importaria de incluir um trecho do
    discurso que proferi sobre a importância de uma legislação de controle de armas
    mais rigorosa?” Isso foi muito característico dele, não se preocupar com sua
    imagem ou com ele mesmo, mas, sim, com o bem maior.

    O – Como o seu pai se sentia com o reconhecimento pelo
    trabalho? Como ele lidava com seus admiradores? Gostava do assédio, de ser
    abordado?

    P – Ele sempre foi muito agradável e dedicava tempo para
    parar, conversar e dar autógrafos. Ele era genuinamente interessado nas pessoas
    e parecia encontrar um bom equilíbrio entre os lados público/privado de sua
    vida. Eu escutei tantas histórias de pessoas que ele encontrou uma vez, em um
    supermercado ou em algum lugar público, e eles sempre falam sobre como ele fazia
    questão de conversar, chamando a pessoa pelo nome, compartilhando um momento
    que foi muito memorável. Com o seu trabalho, eu acho que ele estava sempre se
    esforçando para desafiar a si mesmo, interpretar uma variedade maior de papéis,
    chegar à verdade de um personagem, contar uma história que teria ressonância.

    O – Meus filmes favoritos dele são: “Quando Fala o Coração”, “O Sol é Para
    Todos”, “A Princesa e o Plebeu”, “Matando Sem Compaixão”, “Da Terra Nascem os
    Homens”, “Meninos do Brasil”, “O Matador”, “Estigma da Crueldade” e “A Profecia”.
    Como pode constatar, são vários, de uma filmografia fantástica. Acredito que os
    seus favoritos modifiquem muito, dependendo da época, mas quais obras você citaria
    hoje, e por qual razão?

    P – Meu favorito, dentre todos, é “O Sol é Para Todos”. Eu
    acho que Harper Lee estava certa quando disse que Atticus Finch deu a Gregory
    Peck a chance de interpretar a si mesmo. Eu era pequena quando ele fez o filme
    e eu acho que isso influenciou a maneira como ele criou seus filhos. Ele deu
    muito de sua verdade para o personagem, mas também assimilou muito do personagem
    em sua vida, e esse papel deu a ele a convicção de que poderia ser um homem, um
    pai, com o tipo de integridade e decência que Atticus Finch tinha. Quero dizer,
    ele sempre teve essas qualidades, mas eu acho que foram reforçadas e
    solidificadas quando interpretou Atticus, e, com sorte, fomos os beneficiários.
    Meu outro filme favorito é “A Princesa e o Plebeu”. Meu pai também era muito
    charmoso e muito bem-humorado, como o personagem de Joe Bradley, e ele nem
    sempre conseguia mostrar esse lado. É também um filme muito bem feito, uma
    história de amor atemporal, com uma interpretação hipnotizante de Audrey
    Hepburn. Fizemos questão de mostrar esse lado encantador e engraçado dele no
    documentário: “Uma Conversa com Gregory Peck”.

    O – Cecilia, qual é seu novo projeto? Você pode compartilhar
    com meus leitores?

    P – Eu estou a ponto de ser capaz de anunciá-lo, prometo contar
    para você assim que eu puder.

    O – Cecilia, obrigado pelo seu generoso tempo. Você poderia deixar uma mensagem
    especial para os meus leitores, os brasileiros que amam o legado artístico de
    seu pai?

    P – Obrigada pelo carinho, Caruso. Meu pai adorava a música
    do Brasil e, embora ele nunca tenha sido capaz de ir para lá, sei que ele teria
    adorado. Eu estive no Brasil apenas uma vez, a mais maravilhosa longa aventura,
    que me levou de Manaus e Amazônia, até o Rio, onde eu assisti ao show de
    Caetano Veloso, e, em seguida, fui até a costa de Fortaleza, e me aprofundei na
    costa litoral do norte selvagem. O Brasil é muito bonito e eu me apaixonei
    pelas pessoas, a cultura e a música desse povo. Eu adoraria voltar, em breve, e
    mostrar “Brave Miss World” lá.

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    1 COMENTÁRIO

    1. Parabéns pela entrevista,Octavio!Mais um furo de reportagem!Gregory Peck é um de meus atores preferidos.Adoro "Duelo ao sol" e "Da terra nascem os homens"."O sol é para todos",filmaço!Recentemente,assisti "Days of Glory",seu primeiro trabalho no cinema.Um grupo de rebeldes russos,escondidos numa espécie de caverna,lutando contra os nazistas.Filme triste e bonito,de Jacques Tourner.

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