“American Graffiti”, de George Lucas (+ Entrevista com Roger, do “Ultraje a Rigor”)

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O amigo Roger, grande admirador do clássico “American Graffiti”, em uma entrevista exclusiva para o “Devo Tudo ao Cinema”, aborda o impacto da obra em sua vida.

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Entrevista com Roger Rocha Moreira, da banda “Ultraje a Rigor”:

O – Roger, você consegue recordar a experiência de ver American Graffiti pela primeira vez? Como foi? E nessa primeira sessão, quais aspectos do filme te cativaram com mais intensidade?

R – Não, não consigo. Eu gostei de tudo. Tenho certa fantasia de viver naquele tempo e naquele país. E as músicas, sensacionais!

O – É uma pena que o sucesso avassalador de Star Wars tenha eclipsado essa pequena joia na carreira do George Lucas. Se, por um lado, fez com que o rapaz não se preocupasse mais com orçamento em seus projetos, por outro, trouxe o elemento do medo de arriscar criativamente. Correr riscos é essencial para um cineasta. Você acredita que o sucesso prejudicou criativamente o Lucas mais ousado de THX 1138 e American Graffiti? E, complementando, num exercício hipotético de fã, excluindo a saga espacial da equação, que tipo de filmes você acha que ele estaria realizando hoje?

R – Não creio que o sucesso o tenha prejudicado. Talvez a preguiça. A própria saga foi perdendo força como história. Acho que hoje ele ainda estaria contando histórias parecidas.

O – “Grease” mostra o mesmo período de maneira estereotipada, com tintas fortes, já American Graffiti é uma perfeita máquina do tempo, fazendo você realmente se sentir parte daquele grupo de jovens numa única madrugada insana. A ideia divertida de inserir no desfecho cartelas com o destino dos personagens fictícios facilita ainda mais essa abordagem pé no chão. Você se identificou com algum personagem na obra? Qual (e a razão)? Tem alguma história engraçada/curiosa, envolvendo o filme?

R – Bom, Grease é um musical. Não me identifiquei com nenhum em especial, mas Curt como fio condutor da história, como observador mais adulto, percebendo que estava dando um adeus à adolescência, foi o que mais me prendeu. Eu tive uma banda paralela em 2004 com 12 integrantes e que incluiu em seu repertório muitas das músicas da trilha sonora do filme. Chamava-se “A fabulosa orquestra de rock and roll”.(https://www.youtube.com/watch?v=Ypm79WgeyhE)
(http://deckdisc.com.br/a-fabulosa-orquestra-de-rock-n-roll/)

O – Como um dos roqueiros mais importantes do cenário musical nacional, tenho certeza que o elemento da trilha sonora, repleta de clássicos de rock, doo-wop, até um gospel (“Crying in the Chapel”), do final dos anos 50 e início dos anos 60, foi um dos fatores essenciais para o filme ser tão marcante em sua vida. Como você analisa esse
aspecto no filme?

R – Sem dúvida, a trilha é deliciosa! Toco muitas delas até hoje. E ouço sempre!

O – Gosto demais daquele breve momento no final, quando o personagem do Richard Dreyfuss, já no avião, enxerga ao longe o carro de sua paixão platônica, o símbolo da vida que ele poderia ter caso ficasse em sua cidade. Quais as suas cenas favoritas no filme (e as razões)?

R – Gosto do trote que eles dão na polícia, com a corrente no eixo de rodas. Pela aventura, pela ideia, pela superação por que Curt tem que passar. Um rito de passagem. Gosto do “cruising” na avenida, gosto dos Hot Rods, gosto de quando Curt encontra Wolfman Jack. É um baita filme, cheio de metáforas e com uma trilha sonora sensacional.

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Loucuras de Verão (American Graffiti – 1973)

Vi o filme pela primeira vez em uma sessão televisiva de madrugada no final da década de 90. Como eu tinha aula na manhã seguinte, coloquei o aparelho VHS para gravar, mas não resisti, vi do início ao fim, fui dormir por volta das quatro da manhã, acabei perdendo a hora e acordei por volta do meio-dia. Penso que não foi um erro, já que hoje em dia não me recordo de quase nada que tenha vivido de bom naquela época escolar, mas “Loucuras de Verão” segue firme com ternura em minha memória afetiva.

O que me encantou principalmente foi que a trama se passava durante uma única madrugada, agregando às aventuras daquela garotada a aura mágica da noite, o símbolo do desconhecido a ser desbravado pelas crianças. Um dos mistérios da infância: atravessar acordado uma madrugada e enfrentar a autoridade dos pais.

O roteirista/diretor George Lucas reúne um pequeno grupo de adolescentes que está disposto a aproveitar a última noite antes de partirem para a faculdade, abraçando assim a maturidade, um último grito de liberdade antes de aceitarem o desconfortável nó da gravata do universo adulto. A história se passa no início da década de 60, mas o jovem de hoje pode se identificar plenamente com a angústia de Curt, vivido por Richard Dreyfuss, ou com a insegurança do nerd que busca aceitação dirigindo o carro do amigo descolado.

A bela loira misteriosa do Ford T-Bird 56, vivida por Suzanne Somers, representa as múltiplas possibilidades futuras na zona de conforto desses jovens, o acolhimento familiar e a cidade do interior que eles conseguiriam atravessar de olhos fechados. Ao se apaixonar platonicamente por ela, enxergando em seus lábios silenciosos no carro ao lado uma declaração de amor sussurrada, Curt, o que parece ser o mais sensível e equilibrado do grupo, entra em conflito existencial.

A metáfora é eficiente, o encontro breve se dá em um sinal fechado na rua, o mundo que se abre à frente dos carros é um terreno de total imprevisibilidade. Desistir da loira é aceitar a nova vida na cidade grande, a faculdade, a realização dos sonhos dos pais, estabilidade financeira e responsabilidades adultas. Curt luta pra reencontrar a garota durante a madrugada, mas apenas ao raiar do dia, ao som de “Only You”, do grupo The Platters, com a ajuda imprescindível do radialista, ele consegue falar rapidamente com ela ao telefone.

Vale ressaltar o brilhantismo da sequência anterior, em que o adolescente começa inconscientemente a conhecer a realidade brutal da maturidade ao visitar a estação de rádio, descobrindo a ilusão por trás da figura cultuada de Wolfman Jack, vivida pelo próprio, uma simples voz gravada. A perda da inocência, seguida pelo sorriso irônico ao desligar o telefone sabendo que continuará ignorando o nome da garota, o encaminhamento perfeito para a despedida dos pais antes da partida do avião.

A beleza do desfecho ainda me emociona de maneira muito especial, o olhar plácido de Curt admirando a paisagem pela janela do avião, até que ele percebe ao longe, na estrada abaixo, o Ford T-Bird 56 deslizando pelo asfalto. Ele não se perturba e segue admirando o horizonte, simplesmente aceitando que o período mais divertido de sua vida ficou pra trás. Um Peter Pan que desistiu da Terra do Nunca, preparado para vivenciar novas aventuras, o rapaz cresceu.

O filme foi copiado na década seguinte por várias produções de comédia adolescente, mas nenhuma captou a profundidade da mensagem idealizada por George Lucas, um resgate nostálgico de sua adolescência ao som do rockabilly na cidade de interior.

Octavio Caruso
Viva você também este sonho...

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