Crítica nostálgica da clássica série nacional “O Vigilante Rodoviário” (1959-1962)

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O Vigilante Rodoviário (1959-1962)

Inspetor Carlos, interpretado por Carlos Miranda, e seu cão Lobo, lutam contra o crime, à bordo de uma motocicleta Harley-Davidson 1952 e um Simca Chambord 1959.

O meu primeiro contato com os antigos seriados de cinema foi através da televisão, na infância, vendo o programa “Comando da Madrugada”, apresentado pelo Goulart de Andrade. Ao final, ele transmitia episódios de “O Homem Foguete” (King of the Rocket Men – 1949). Aos meus olhos de criança, aquilo era fascinante, um herói fantasiado, com um foguete nas costas, em preto e branco. Só quem foi nerd e viveu o período pré-internet, sabe a emoção de, no marasmo televisivo, encontrar no susto algo como “Top TV”, com matérias sobre “Ultraman”, o desenho animado dos “X-Men” e, claro, “O Vigilante Rodoviário”. Meu pai também ajudou neste processo, ele me apresentou o personagem, se não me falha a memória, em VHS, junto com “National Kid”. As aventuras do japonês não me encantaram, na seara do tokusatsu eu só tinha olhos na época para “Jaspion”, “Jiraya” e “Changeman”, mas o vigilante vivido por Carlos Miranda me capturou pela simplicidade na estrutura das histórias e por transbordar aquela ingenuidade bonita que eu já associava ao “Homem Foguete” e, em teoria, ao farto material que lia sobre o tema nas revistas “Cinemin”.

vr 9 - Crítica nostálgica da clássica série nacional "O Vigilante Rodoviário" (1959-1962)Ary Fernandes, enquanto a televisão brasileira dava seus primeiros passos, enxergou a necessidade de heróis genuinamente nacionais, alguém que personificasse os ideais de integridade, justiça e honra que moldam o caráter dos jovens, semente para o futuro de qualquer nação séria. Assim, com produção praticamente independente, nasceu o primeiro seriado filmado em película no país, com (para a época) ousadas cenas externas, protagonizado por Carlos Miranda, exibido originalmente nas noites de quarta-feira pela TV Tupi, logo depois do Repórter Esso.

É interessante ver como os roteiros envolviam normalmente questões morais, o protagonista só utilizava os punhos quando realmente não havia outra forma de resolver a situação. Como o próprio Carlos sempre diz, “honestidade é obrigação”, não há mérito em ser bom, agir corretamente é um dever. Em tramas como “A história do Lobo”, “A repórter” (com a participação de Rosamaria Murtinho), “Diamante Grão Mongol” (o primeiro a ser transmitido), “A eleição” (sem cenas de ação, o ato de heroísmo reside em proteger um colega psicologicamente traumatizado), “A pedreira”, “O sósia”, “O suspeito” (Carlos se alia à uma criança, na tentativa de provar que o irmão dela não é culpado de um crime) e “Mistério do Embu”, podemos notar estes valores sendo essenciais na resolução dos conflitos. Quando ligo a televisão hoje em dia, a vergonha alheia com o entretenimento comercialmente atraente me domina, sinto pena das crianças e adolescentes desta geração. Como pensar um Brasil melhor com esta dose diária de lixo tóxico?

Carlos se apaixonou pela vida do Policial Rodoviário e, anos depois do término da série, acabou trabalhando na corporação, função que exerceu até sua aposentadoria. O seriado ainda é exibido, seus fãs seguem fiéis ao código de ética de seu herói da infância. “O Vigilante Rodoviário”, com sua vibrante canção-tema defendida pelo grupo de cantores cegos “Titulares do Ritmo”, virou brinquedo, revista em quadrinhos, foi um sucesso retumbante de público e crítica, recebendo o Troféu Roquette Pinto e o Troféu Imprensa.

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Finalizando, faço questão de compartilhar uma linda lembrança. Antes de roteirizar/dirigir meu primeiro curta-metragem, tive uma experiência fascinante. O projeto “Os Vigilantes”, que idealizei em 2013, era uma série de ficção ousada sobre um grupo de heróis nacionais. Convidei o querido Carlos Miranda para revisitar seu personagem como o chefe da equipe. Nós filmamos o teaser em 2014 para tentar viabilizar o piloto, mas a triste realidade brasileira impediu nosso sonho. Jamais vou esquecer aquela tarde maravilhosa, o carinho e a generosidade do Carlos, um artista que merece receber em vida todas as homenagens e ser abraçado por seu povo.

“De noite ou de dia, firme no volante, vai pela rodovia, bravo Vigilante.”

Cotação: 3 stars - Crítica nostálgica da clássica série nacional "O Vigilante Rodoviário" (1959-1962)

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